“Ser anfitrião das belas letras.”
Com esta legenda, o presente Blog pretende abrir espaço para os talentos da literatura (com ênfase na fluminense). Tal sítio é reservado ao fomento e divulgação da boa poesia, da crônica, do conto, da crítica e, também, da vivência em meio às Instituições acadêmico-literárias. Preservar a memória dessa literatura, promover o trabalho de autores cujas obras já se encontram consolidadas e apoiar as promessas que ingressam na senda literária é o nosso papel.
Quem são os “atores” da Renascença Fluminense? As postagens anteriores suscitaram perguntar como essa. Essas desejam saber se teríamos talentos que pudessem encabeçar a proposta de um renascimento da cultura literária fluminense (e, se caso houvesse, quem seriam essas figuras). As postagens que se seguirão a esta vêm responder a essas indagações. Apresentaremos alguns dos escritores que compõem o significativo cenário da literatura fluminense (sejam eles vivos-atuantes ou pertencentes a um passado ainda muito vigente). Consideremos homenageados os nomes aqui contemplados; estejamos, pois, preparados para o que é reconhecido como o melhor e o mais louvável na literatura feita no Rio de Janeiro.
Subsídios para a história de um Calçadão, por Sandro Pereira Rebel
Na Livraria Ideal, em clima sempre de festa, e de maneira informal, o saber se manifesta.
Quem são os “atores” da Renascença Fluminense? As postagens anteriores suscitaram perguntar como essa. Essas desejam saber se teríamos talentos que pudessem encabeçar a proposta de um renascimento da cultura literária fluminense (e, se caso houvesse, quem seriam essas figuras). As postagens que se seguirão a esta vêm responder a essas indagações. Apresentaremos alguns dos escritores que compõem o significativo cenário da literatura fluminense (sejam eles vivos-atuantes ou pertencentes a um passado ainda muito vigente). Consideremos homenageados os nomes aqui contemplados; estejamos, pois, preparados para o que é reconhecido como o melhor e o mais louvável na literatura feita no Rio de Janeiro.
É uma das criaturas mais simples deste país de gente importante. E também um de seus maiores escritores. Antigamente, de pés descalços e braços nus, corria pelas campinas de Marajó atrás das borboletas azuis que não eram de Casimiro de Abreu. Hoje, de borzeguins e paletó-saco, percorre a rua do Catete e anexos atrás da vida. É Dalcídio Jurandir. Um romancista tão grande como sua ilha.
A lua e a chuva
Veio do país das águas, de uma terra que Deus, em fim de obra, deixou sem retoques. Por isso Marajó ficou assim grandona, capaz de engolir vários países. Braba, tosca, mal saída da forma de Deus. Inchada! Não pensem que as noites de Marajó são como as outras noites. Que esperança! Quando a lua vem a furo é maior que a roda de um carro de boi! Quando chove nos campos da cachoeira é como se o Dilúvio voltasse! É a aurora do mundo à disposição de todos nós. De graça.
Sem pressa e sem atropelos
Não é fácil falar com Dalcídio Jurandir do Grão Pará. É um Jurandir arredio, bicho de concha, que aparece nas casas de livros na boquinha da noite. Olha um volume, olha outro, dá dois dedos de prosa ao famoso mercador Carlos Ribeiro, da Livraria São José, para desaparecer como veio. Suavemente, sem fazer barulho, que o lema desse mestre de modéstia é o mesmo de Valdemar Cavalcanti. Isto é, entrar na fila, não atrapalhar os outros. E assim tem vivido Dalcídio Jurandir. Sem atropelar ninguém.
A importância de usar pasta
Enfim, estou de Dalcídio Jurandir em pauta. Vou caminhando com simplicidade pela Rua São José. Cachos de cigarras desfolham dos pés de pau. À tarde começa a encerrar o expediente. Senhores apressados, tinindo em seus colarinhos, passam empurrando avassaladoras pastas. Dalcídio sorri para informar que sempre teve grande grande respeito pelos portadores de pastas. Principalmente pastas negras. No mínimo são diretores-gerais ou banqueiros em trânsito para os dez por cento ao mês. No mínimo!
Farinha-d’água dos seus beijus
Conversa vai e conversa vem. Pergunto pela sua bem trabalhada e lavrada existência de escritor. E Dalcídio:
− Mal ou bem, venho mergulhado nesse barro há mais de trinta anos, seu doutor. Todo o meu romance, distribuído em vários volumes, é feito, na maior parte, da gente mais comum, tão ninguém, que é a minha criatura de Marajó, Ilhas e Baixo Amazonas. Um bom intelectual de cátedra alta diria: são as minhas essências, as minhas virtualidades. Eu digo tão simplesmente: é a farinha d’água de meus beijus. A esse pessoal miúdo que tento representar em meus romances costumo chamar de aristocracia de pé no chão. Modéstia à parte, se me coube um pouco do dom de escrever, se não fiquei por lá, pescador, barqueiro, vendedor de açaí, o pequeno dom eu recebo como um privilégio, uma responsabilidade assumida, para servir aos meus irmãos de igapó e barranco. Entre aquela gente sem nada, uma vocação literária é coisa que não se bota fora. A eles tenho de dar conta do encargo, bem ou mal, mas com obstinação e verdade. O leitor que acaso folheie um dos meus romances pode logo achar o estilo capenga, a técnica mal arranjada, a fantasia curta, mas tenha um pouco de paciência, preste atenção e escute um soluço, um canto, um gesto daquelas criaturas que procuro interpretar com os pobres recursos de que disponho.
E, a propósito, lembra Dalcídio Jurandir de seu velho tio de Cachoeiras, barbeiro e cozinheiro, uma espécie de Brillat-Savarin de comarca, gênio de um prato só: o picado fradesco. E Dalcídio: − Não tenho no romance as malhas da perícia que tem meu tio na cozinha. Mas vou fazendo, a meu modo, o meu picado fradesco...
Para no meio da rua, diz que está falando demais, que a tarde despenca muito bonita para a gente tratar de coisas de letras redondas. E volta ao Jurandir bicho de concha. Quase sem fala. De corda quebrada.
(...)”
(CARVALHO, José Cândido. Ninguém mata o arco-íris – 35 retratos em 3x4. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1972. p. 55-58.)
(Dalcídio Jurandir em caricatura assinada por Appe)
Esta postagem é dedicada, In Memoriam, a José Roberto Freire Pereira, articulista literário e curador da obra de seu pai, o modernista Dalcídio Jurandir. José Roberto lutava pelo resgate da obra do pai e escolheu Niterói para desenvolver seu trabalho.
Nesta noite de sexta-feira, dia 20 de maio de 2010, empossou-se na cadeira número 15, da Academia Brasileira de Letras o escritor carioca Marco Américo Lucchesi. A cerimônia solene contou com um grande e seleto público. Esta postagem, mais figurativa que narrada, retrata esta noite memorável.
Poeta, crítico literário e jornalista, foi professor de Latim e noções de Direito Usual na incipiente Universidade Federal Fluminense (UFF). Nascido em Niterói/RJ, em 1924, desde o início da década de 1950 colabora em suplementos literários, como Letras fluminenses, O Gládio e Prosa & verso, de O Fluminense. Atuante na vida cultural fluminense, é fundador de diversos grêmios e grupos literários, como Grêmio Literário Humberto de Campos (1944), Clube de Poesia de Niterói (1956), Grupo dos Amigos do Livro (1957); Associação Niteroiense de Cultura Latino-Americana (1964) e Grupo de Letras Fluminenses (1954). Participa de diversas instituições, entre elas, com destaque, as academias Fluminense e Niteroiense de Letras. Em 1965, manteve um programa radiofônico sobre poesia, intitulado Suave é a noite, na Rádio Sociedade de Nova Friburgo. Atualmente é um dos principais colunistas da Revista Bali - Boletim da Academia de Letras de Itaocara, dirigida por Kleber Leite.
Extrato de entrevista de Sávio Soares de Sousa, concedida a Roberto Kahlmeyer-Mertens
Sua formação em nível superior é no campo do Direito?
Sim, bacharelei-me em Direito por causa de meu pai. Eu sonhava com a carreira diplomática e com o magistério universitário. Estava na dúvida, e meu pai me falou: “ – Seria mais interessante que você fizesse Direito, pois eu já tenho os livros, a experiência, o escritório e a clientela”. Cursei a Faculdade de Direito, mas não tinha muito tempo para o estudo, porque, sendo de família pobre, era empregado bancário, com um horário absorvente, das 8 da manhã às 6 da tarde, e, assim, não fui o bom estudante que poderia ter sido. Com o diploma na mão, pensei comigo: “ – E agora: o que fazer com este canudo?” Advoguei por algum tempo, mas não me sentia com grande vocação para os debates forenses. Um dia, surgiu a oportunidade de tentar um concurso para o ingresso na Magistratura. Na data das inscrições, alguém, certamente um enviado de Belzebu, me falou assim: “ – Rapaz, você vai fazer papel de palhaço. Desde há muitas décadas, só passa nesses concursos quem seja apadrinhado. É um jogo com cartas marcadas. Só entra quem for filho de desembargador, ou de político, gente poderosa. Você é filho ou parente de desembargador? Seu pai não é um advogado influente e você não terá chance alguma. Não perca o seu tempo!” Ouvi o conselho, desisti da inscrição, rasguei a papelada... Joguei fora uma boa oportunidade. Verifiquei, depois, que entre os aprovados e nomeados figuravam muitos candidatos que não gozavam de nenhuma proteção ou favoritismo. Eu poderia ter sido um deles, imagino, porque, para suprir as deficiências do curso universitário, havia consumido noites e noites estudando Direito através da jurisprudência contida nos quatrocentos volumes da Revista dos Tribunais, adquiridos com esse objetivo.
Quem sabe não seria hoje um desembargador aposentado, na melhor das hipóteses? Alguns meses depois, abriram-se as inscrições para o concurso de ingresso no Ministério Público Estadual. Preparei a documentação necessária e no dia das inscrições me aparece, novamente, um desses emissários dos infernos, com a mesma cantilena. Não lhe dei ouvidos. Inscrevi-me, fiz o concurso e obtive ótima classificação. Fui nomeado Promotor de Justiça, exerci a função nas comarcas do interior por dez anos, e, finalmente, promovido por merecimento ao cargo de Procurador de Justiça, permaneci, durante vinte anos, no Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, junto às Câmaras Criminais, emitindo pareceres, inclusive, em casos criminais de grande repercussão. Nesse cargo me aposentei aos sessenta e nove anos de idade, em 1991.
E a passagem para a literatura, como foi?
Também aí se fez sentir a influência de Doutor Osvaldo Soares de Sousa, meu pai, que era inteligente e culto, e amava a literatura, sabe? Ele exerceu a advocacia pela necessidade de sustentar uma família numerosa – quinze filhos, além de agregados. Sua biblioteca ocupava um cômodo inteiro de nossa casa modesta, e era rica de volumes valiosos. E assim é que ele nos reunia, aos filhos maiores, na sala de visitas, à noite, e lia para nós, com um entusiasmo que nos empolgava, poemas de Gonçalves Dias, Castro Alves, Olavo Bilac e os poetas de sua preferência. Nunca publicou livros, embora também fosse poeta e autor de numerosos sonetos, divulgados pelos jornais e revistas do seu tempo de moço.
A influência paterna é, então, determinante em sua história com a literatura?
Sem dúvida!
Mas há, também, os movimentos literários como a roda do Calçadão da Cultura, em cuja gênese o senhor se encontra.
É verdade. Tomei parte em alguns movimentos literários e grupos dedicados à expansão da cultura, sobretudo à democratização da cultura. Sempre fui avesso a círculos fechados, a panelinhas de elogio mútuo, focos, muitas vezes, da exclusão de autênticos valores. No caso do Calçadão da Cultura, as coisas aconteceram meio na base do improviso, compreende? Fui, durante muitos anos, o orador oficial do Grupo de Amigos do Livro, por opção do livreiro Silvestre Mônaco, a quem me prendiam fortes laços de amizade.
Mas como surge esse movimento literário? Imagino que movimentos como esses círculos devam surgir como coisa inesperada, espontânea? Ou teria havido um projeto, com diretrizes, estatutos?
Esses movimentos, em regra geral, brotam de um pequeno grupo, que idealiza certo tipo de organização, com objetivos definidos, e depois crescem, com a adesão de novos elementos, atraídos pela novidade ou pela oportunidade de revelar seus talentos. Aí, sim, há estatutos, manifestos, debates preliminares. Mas, como já lhe disse, no Calçadão da Cultura, nada se fez de caso pensado, não houve premeditação. Isoladamente, éramos todos frequentadores da Livraria Ideal, na época em que a livraria era só uma portinha, na Rua da Praia. Um dia, o Silvestre Mônaco, pai do Carlos, e primeiro proprietário, juntamente com o sócio Emílio Petraglia, resolveu ampliar as dependências da loja. Terminada a obra, ele nos convidou, a mim, ao Carlos Couto, ao Luís Antônio Pimentel e ao Roberto Silveira, para organizarmos a comemoração do acontecimento. Como contribuição pessoal, adquiri um livro de presença, para o registro do comparecimento de fregueses e para a lavratura das atas de reunião, quando houvesse, e o ofereci, no dia da festa, ao Silvestre. Em meio à festa, o advogado Manoel Martins sugeriu que se aproveitasse a oportunidade para lançar a pedra fundamental de um grupo permanente de leitores ligados à Livraria Ideal. Foi lavrada uma ata e assim surgiu, em termos positivos, o Grupo dos Amigos do Livro. Todos os presentes assinaram a ata e o livro de presença é, hoje, um documento histórico. A minha escolha para orador do Grupo foi, apenas, uma consequência da oferta do livro de presenças (risos).
Era uma turma boa: Roberto Silveira, Afonso Celso Nogueira Monteiro, Gomes Filho, Aurélio Zaluar, Marly Medalha, Milton Nunes Loureiro, De Azevedo Rolim, Luiz Magalhães, Sylvio Lago, Raul Stein de Almeida, Dayl e Lyad de Almeida, Arino Peres, e muitos outros... O Grupo passou a se reunir regularmente, e o Geir trouxe muita gente do Rio de Janeiro para nos visitar, como o crítico Agripino Grieco.
Muitos podem ter sido os acontecimentos dignos de serem narrados. O senhor lembra de alguns?
A história do grupo é bem divertida e variada... Existem muitas estorinhas... assim, de cabeça, poderia lembrar algumas (...)
(Esta entrevista estará publicada na íntegra no livro: Conversações com intelectuais fluminenses, a ser publicado até julho de 2011)
Rapsódia para sanfona: o si maior de Sávio Soares de Sousa
Roberto S. Kahlmeyer-Mertens
Rapsódia é um tipo de composição musical de estrutura indefinida, reunindo vários temas de inspiração popular. Durante a Idade Média, rapsodos corriam as cidades cantando versos embalados por música. Com o passar do tempo, a música e suas letras em quadras ganharam acento erudito, a ponto de, hoje, conhecermos mais as obras célebres como a Rapsódias Húngaras de Liszt e a Rhapsody in Blue de Gershwin do que aquela forma original.
O livro Rapsódia para sanfona encaixa-se duplamente nessa descrição. Conjunto de muitos versos, reúne o popular e o erudito; as poesias de teor público e as maximamente autorais. A “rapsódia” de Sávio Soares de Sousa é uma seleta de trovas, gênero também secular e que o autor domina muito bem.
A obra obedece a uma interessante intuição, pretende retomar a forma erudita da trova e reconduzi-la a suas origens populares. Ora, se conhecíamos a tentativa de Fernando Pessoa em fazer isso (e seu êxito parcial), conheçamos o resultado feliz do livro aqui apreciado. As trovas de Sávio seguem a forma clássica: quatro versos metrificados, rimando o primeiro com o terceiro e o segundo verso com o quarto (que geralmente concentra o efeito estético do poema, em seu desfecho inesperado ou espirituoso).
Não falta espírito em Rapsódia para sanfona! O autor maneja a palavra de modo a brincar com provérbios, flertar com a literatura culta e a revisitar muitas das formas do simbólico. Constata-se isso quando – remetendo-se ao conceito de inconsciente freudiano – diz o poeta (p.14):
“Forças ocultas sabotam
a consciência do cristão:
- anjos rezando no sótão,
- diabinhos no porão.”
Repleta de graça, esta é trova em sua fórmula precisa. Mas destaquemos a deliciosa ambigüidade que o “porão” traz no referido contexto. Outra amostra é vista nestes versos (p.23):
“Atirei um limão triste
no rumo do teu olhar:
ingrato amor, não me viste,
nem me ouviste suspirar...”
Com carga dramática, o significado aqui está entremeado no gesto do amante ao jogar o limão. Esse, popularmente, traduz uma insinuação de amor, emprestando rara sutileza a esta e outras trovas que variam sobre o mesmo tema.
Se for certo que a poesia é inteligência e carisma, Rapsódia para sanfona é um livro que estaria pronto para convencer até o mais cético dos leitores quanto a essa premissa. A mesma impressão se confirma na edição do livro, que traz na capa uma das últimas ilustrações que o desenhista Miguel Coelho produziu, e a assinatura da Traço & Foto, editora que há bastante tempo publica nomes e títulos escolhidos a dedo.
Quem são os “atores” da Renascença Fluminense? As postagens anteriores suscitaram perguntar como essa. Essas desejam saber se teríamos talentos que pudessem encabeçar a proposta de um renascimento da cultura literária fluminense (e, se caso houvesse, quem seriam essas figuras). As postagens que se seguirão a esta vêm responder a essas indagações. Apresentaremos alguns dos escritores que compõem o significativo cenário da literatura fluminense (sejam eles vivos-atuantes ou pertencentes a um passado ainda muito vigente). Consideremos homenageados os nomes aqui contemplados; estejamos, pois, preparados para o que é reconhecido como o melhor e o mais louvável na literatura feita no Rio de Janeiro.
Fragmentos de Misael – Crônica de uma paternidade, por A. Barcellos Sobral
1.
Quando ele vier, cintilará mais o cristal da minha humanidade.
Não é a estrela que impõe alma às trevas?
Quando meu filho vier, será preciso estar como uma caixinha de música que alimentará as primeiras alegrias da sua atenção.
Quando ele vier, entrará em mim como um barco que tocará onde nenhum outro jamais tocou.
2.
Como será a face de meu filho?
Quem dirá as cores do dia a ponto de amanhecer.
Se ele se assemelhar a mim será como a água que reflete os picos profundos.
Se for como tu, Inaiá, será como a açucena que imita a açucena, a beira do caminho violento.
3.
A lembrança de que vou ser pai repica em mim como sinal de festa, no sino da igreja.
Mas Inaiá está pesada e lenta como nuvem carregada de chuva.
A chuva desperta, na semente, o clarão da vida.
Meu filho vai despertar em mim aquela vida de que sua vida precisará para encontrar a vida.
4.
Por enquanto os braços estão abertos. Aguardando-o como o sol.
Como o sol que ainda não nasceu e já colore o horizonte e já matiza ele minha vida, impaciente do seu advento.
Até agora o cofre está vazio. Quando ele nascer, uma pérola cairá no fundo, e o pobre de hoje não mais será tão pobre. Enricará, com a maciez dos seus dias.
5.
Inaiá acaba de bordar a manta que agasalhará o primeiro sono do nosso filho.
É um pano sem gala. Nenhum luxo o guarda, além do aparato de nossas esperanças.
Cada ponto, cada arabesco que ela gravou no agasalho nele prendeu sua alma de adoração.
Quando ele, na manta, se enrolar, será na alma de sua mãe que se enrolará.
Ele pode vir. Com o frio da noite. Ou com o acalanto da tarde. Uma constelação de confiança espera-o junto ao berço.
6.
Durante o dia, os pensamentos de espera entrecruzam-se como andorinhas curiosas. Em festa.
À noite, os pensamentos mudam. Esmorecem, na languidez do quarto, no ócio das trevas. Então, caio num claro-escuro de dúvidas. De pressentimentos. Como se ele tivesse vindo, e devêssemos seguir para a primeira partida com a vida.
Por que essa inquietação? Esse balé de dúvidas, de zelos?
7.
Quero-te paciente, Inaiá, como a chuva que se demora sobre a terra, apaziguando-a para o gênio das sementes.
O lavrador prepara o solo para que a espiga se opulente. Eu cuido da terra plantada do coração, responsáveis pelas semeadas que o farão florir.
Íngreme, sozinho é o planalto do ser. No topo desse planalto o meridiano da vida. Sozinho terá ele de subi-lo. Que, ao longo das subidas, suas quedas encontrem ânimos na sabedoria de nossa paciência.
8.
Ele ficará entre nós dois, como ponte entre dois continentes complementares.
Como o canal que, unindo dois lagos, arrasta um para o outro. E assemelhará, cada vez mais, os dois lagos inseparáveis.
(...)
(SOBRAL, A. Barcellos. Misael – Crônicas de uma paternidade.
Niterói: Cromos, 1996.)
Biografia:
Poeta, teórico da literatura e esteta da arte nascido em 1919, no município de Campos dos Goytacazes/RJ. Dono de uma obra poética sólida, propõe ideias estéticas para a elaboração daquilo que, em Contemplação da Unidade, sua principal obra, chamou de “poesia integral”. Nesse tratado de metafísica natural, o autor conjuga conceitos de filosofia de física quântica e física clássica, tangendo diretamente a termodinâmica clássica do físico alemão Max Planck e a transdiciplinaridade do professor Pierre Weil (holística).
Bibliografia:
Poema/1° Caderno. Campos: Clube de Poesia de Campos, 1955.
No alto como as estrelas. Rio de Janeiro: Cátedra, 1986.
Misael – Crônicas de uma paternidade: Niterói: Cromos, 1996.
Contemplação da unidade – Tentativa de uma holística da existência. Niterói: Lachâtre, 1998.
Contemplação da unidade – Tentativa de uma holística da existência. Niterói: Nitpress, 2008.