“Ser anfitrião das belas letras.”
Com esta legenda, o presente Blog pretende abrir espaço para os talentos da literatura (com ênfase na fluminense). Tal sítio é reservado ao fomento e divulgação da boa poesia, da crônica, do conto, da crítica e, também, da vivência em meio às Instituições acadêmico-literárias. Preservar a memória dessa literatura, promover o trabalho de autores cujas obras já se encontram consolidadas e apoiar as promessas que ingressam na senda literária é o nosso papel.
Nesta noite de sexta-feira, dia 20 de maio de 2010, empossou-se na cadeira número 15, da Academia Brasileira de Letras o escritor carioca Marco Américo Lucchesi. A cerimônia solene contou com um grande e seleto público. Esta postagem, mais figurativa que narrada, retrata esta noite memorável.
Poeta, crítico literário e jornalista, foi professor de Latim e noções de Direito Usual na incipiente Universidade Federal Fluminense (UFF). Nascido em Niterói/RJ, em 1924, desde o início da década de 1950 colabora em suplementos literários, como Letras fluminenses, O Gládio e Prosa & verso, de O Fluminense. Atuante na vida cultural fluminense, é fundador de diversos grêmios e grupos literários, como Grêmio Literário Humberto de Campos (1944), Clube de Poesia de Niterói (1956), Grupo dos Amigos do Livro (1957); Associação Niteroiense de Cultura Latino-Americana (1964) e Grupo de Letras Fluminenses (1954). Participa de diversas instituições, entre elas, com destaque, as academias Fluminense e Niteroiense de Letras. Em 1965, manteve um programa radiofônico sobre poesia, intitulado Suave é a noite, na Rádio Sociedade de Nova Friburgo. Atualmente é um dos principais colunistas da Revista Bali - Boletim da Academia de Letras de Itaocara, dirigida por Kleber Leite.
Extrato de entrevista de Sávio Soares de Sousa, concedida a Roberto Kahlmeyer-Mertens
Sua formação em nível superior é no campo do Direito?
Sim, bacharelei-me em Direito por causa de meu pai. Eu sonhava com a carreira diplomática e com o magistério universitário. Estava na dúvida, e meu pai me falou: “ – Seria mais interessante que você fizesse Direito, pois eu já tenho os livros, a experiência, o escritório e a clientela”. Cursei a Faculdade de Direito, mas não tinha muito tempo para o estudo, porque, sendo de família pobre, era empregado bancário, com um horário absorvente, das 8 da manhã às 6 da tarde, e, assim, não fui o bom estudante que poderia ter sido. Com o diploma na mão, pensei comigo: “ – E agora: o que fazer com este canudo?” Advoguei por algum tempo, mas não me sentia com grande vocação para os debates forenses. Um dia, surgiu a oportunidade de tentar um concurso para o ingresso na Magistratura. Na data das inscrições, alguém, certamente um enviado de Belzebu, me falou assim: “ – Rapaz, você vai fazer papel de palhaço. Desde há muitas décadas, só passa nesses concursos quem seja apadrinhado. É um jogo com cartas marcadas. Só entra quem for filho de desembargador, ou de político, gente poderosa. Você é filho ou parente de desembargador? Seu pai não é um advogado influente e você não terá chance alguma. Não perca o seu tempo!” Ouvi o conselho, desisti da inscrição, rasguei a papelada... Joguei fora uma boa oportunidade. Verifiquei, depois, que entre os aprovados e nomeados figuravam muitos candidatos que não gozavam de nenhuma proteção ou favoritismo. Eu poderia ter sido um deles, imagino, porque, para suprir as deficiências do curso universitário, havia consumido noites e noites estudando Direito através da jurisprudência contida nos quatrocentos volumes da Revista dos Tribunais, adquiridos com esse objetivo.
Quem sabe não seria hoje um desembargador aposentado, na melhor das hipóteses? Alguns meses depois, abriram-se as inscrições para o concurso de ingresso no Ministério Público Estadual. Preparei a documentação necessária e no dia das inscrições me aparece, novamente, um desses emissários dos infernos, com a mesma cantilena. Não lhe dei ouvidos. Inscrevi-me, fiz o concurso e obtive ótima classificação. Fui nomeado Promotor de Justiça, exerci a função nas comarcas do interior por dez anos, e, finalmente, promovido por merecimento ao cargo de Procurador de Justiça, permaneci, durante vinte anos, no Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, junto às Câmaras Criminais, emitindo pareceres, inclusive, em casos criminais de grande repercussão. Nesse cargo me aposentei aos sessenta e nove anos de idade, em 1991.
E a passagem para a literatura, como foi?
Também aí se fez sentir a influência de Doutor Osvaldo Soares de Sousa, meu pai, que era inteligente e culto, e amava a literatura, sabe? Ele exerceu a advocacia pela necessidade de sustentar uma família numerosa – quinze filhos, além de agregados. Sua biblioteca ocupava um cômodo inteiro de nossa casa modesta, e era rica de volumes valiosos. E assim é que ele nos reunia, aos filhos maiores, na sala de visitas, à noite, e lia para nós, com um entusiasmo que nos empolgava, poemas de Gonçalves Dias, Castro Alves, Olavo Bilac e os poetas de sua preferência. Nunca publicou livros, embora também fosse poeta e autor de numerosos sonetos, divulgados pelos jornais e revistas do seu tempo de moço.
A influência paterna é, então, determinante em sua história com a literatura?
Sem dúvida!
Mas há, também, os movimentos literários como a roda do Calçadão da Cultura, em cuja gênese o senhor se encontra.
É verdade. Tomei parte em alguns movimentos literários e grupos dedicados à expansão da cultura, sobretudo à democratização da cultura. Sempre fui avesso a círculos fechados, a panelinhas de elogio mútuo, focos, muitas vezes, da exclusão de autênticos valores. No caso do Calçadão da Cultura, as coisas aconteceram meio na base do improviso, compreende? Fui, durante muitos anos, o orador oficial do Grupo de Amigos do Livro, por opção do livreiro Silvestre Mônaco, a quem me prendiam fortes laços de amizade.
Mas como surge esse movimento literário? Imagino que movimentos como esses círculos devam surgir como coisa inesperada, espontânea? Ou teria havido um projeto, com diretrizes, estatutos?
Esses movimentos, em regra geral, brotam de um pequeno grupo, que idealiza certo tipo de organização, com objetivos definidos, e depois crescem, com a adesão de novos elementos, atraídos pela novidade ou pela oportunidade de revelar seus talentos. Aí, sim, há estatutos, manifestos, debates preliminares. Mas, como já lhe disse, no Calçadão da Cultura, nada se fez de caso pensado, não houve premeditação. Isoladamente, éramos todos frequentadores da Livraria Ideal, na época em que a livraria era só uma portinha, na Rua da Praia. Um dia, o Silvestre Mônaco, pai do Carlos, e primeiro proprietário, juntamente com o sócio Emílio Petraglia, resolveu ampliar as dependências da loja. Terminada a obra, ele nos convidou, a mim, ao Carlos Couto, ao Luís Antônio Pimentel e ao Roberto Silveira, para organizarmos a comemoração do acontecimento. Como contribuição pessoal, adquiri um livro de presença, para o registro do comparecimento de fregueses e para a lavratura das atas de reunião, quando houvesse, e o ofereci, no dia da festa, ao Silvestre. Em meio à festa, o advogado Manoel Martins sugeriu que se aproveitasse a oportunidade para lançar a pedra fundamental de um grupo permanente de leitores ligados à Livraria Ideal. Foi lavrada uma ata e assim surgiu, em termos positivos, o Grupo dos Amigos do Livro. Todos os presentes assinaram a ata e o livro de presença é, hoje, um documento histórico. A minha escolha para orador do Grupo foi, apenas, uma consequência da oferta do livro de presenças (risos).
Era uma turma boa: Roberto Silveira, Afonso Celso Nogueira Monteiro, Gomes Filho, Aurélio Zaluar, Marly Medalha, Milton Nunes Loureiro, De Azevedo Rolim, Luiz Magalhães, Sylvio Lago, Raul Stein de Almeida, Dayl e Lyad de Almeida, Arino Peres, e muitos outros... O Grupo passou a se reunir regularmente, e o Geir trouxe muita gente do Rio de Janeiro para nos visitar, como o crítico Agripino Grieco.
Muitos podem ter sido os acontecimentos dignos de serem narrados. O senhor lembra de alguns?
A história do grupo é bem divertida e variada... Existem muitas estorinhas... assim, de cabeça, poderia lembrar algumas (...)
(Esta entrevista estará publicada na íntegra no livro: Conversações com intelectuais fluminenses, a ser publicado até julho de 2011)
Rapsódia para sanfona: o si maior de Sávio Soares de Sousa
Roberto S. Kahlmeyer-Mertens
Rapsódia é um tipo de composição musical de estrutura indefinida, reunindo vários temas de inspiração popular. Durante a Idade Média, rapsodos corriam as cidades cantando versos embalados por música. Com o passar do tempo, a música e suas letras em quadras ganharam acento erudito, a ponto de, hoje, conhecermos mais as obras célebres como a Rapsódias Húngaras de Liszt e a Rhapsody in Blue de Gershwin do que aquela forma original.
O livro Rapsódia para sanfona encaixa-se duplamente nessa descrição. Conjunto de muitos versos, reúne o popular e o erudito; as poesias de teor público e as maximamente autorais. A “rapsódia” de Sávio Soares de Sousa é uma seleta de trovas, gênero também secular e que o autor domina muito bem.
A obra obedece a uma interessante intuição, pretende retomar a forma erudita da trova e reconduzi-la a suas origens populares. Ora, se conhecíamos a tentativa de Fernando Pessoa em fazer isso (e seu êxito parcial), conheçamos o resultado feliz do livro aqui apreciado. As trovas de Sávio seguem a forma clássica: quatro versos metrificados, rimando o primeiro com o terceiro e o segundo verso com o quarto (que geralmente concentra o efeito estético do poema, em seu desfecho inesperado ou espirituoso).
Não falta espírito em Rapsódia para sanfona! O autor maneja a palavra de modo a brincar com provérbios, flertar com a literatura culta e a revisitar muitas das formas do simbólico. Constata-se isso quando – remetendo-se ao conceito de inconsciente freudiano – diz o poeta (p.14):
“Forças ocultas sabotam
a consciência do cristão:
- anjos rezando no sótão,
- diabinhos no porão.”
Repleta de graça, esta é trova em sua fórmula precisa. Mas destaquemos a deliciosa ambigüidade que o “porão” traz no referido contexto. Outra amostra é vista nestes versos (p.23):
“Atirei um limão triste
no rumo do teu olhar:
ingrato amor, não me viste,
nem me ouviste suspirar...”
Com carga dramática, o significado aqui está entremeado no gesto do amante ao jogar o limão. Esse, popularmente, traduz uma insinuação de amor, emprestando rara sutileza a esta e outras trovas que variam sobre o mesmo tema.
Se for certo que a poesia é inteligência e carisma, Rapsódia para sanfona é um livro que estaria pronto para convencer até o mais cético dos leitores quanto a essa premissa. A mesma impressão se confirma na edição do livro, que traz na capa uma das últimas ilustrações que o desenhista Miguel Coelho produziu, e a assinatura da Traço & Foto, editora que há bastante tempo publica nomes e títulos escolhidos a dedo.
Quem são os “atores” da Renascença Fluminense? As postagens anteriores suscitaram perguntar como essa. Essas desejam saber se teríamos talentos que pudessem encabeçar a proposta de um renascimento da cultura literária fluminense (e, se caso houvesse, quem seriam essas figuras). As postagens que se seguirão a esta vêm responder a essas indagações. Apresentaremos alguns dos escritores que compõem o significativo cenário da literatura fluminense (sejam eles vivos-atuantes ou pertencentes a um passado ainda muito vigente). Consideremos homenageados os nomes aqui contemplados; estejamos, pois, preparados para o que é reconhecido como o melhor e o mais louvável na literatura feita no Rio de Janeiro.
Fragmentos de Misael – Crônica de uma paternidade, por A. Barcellos Sobral
1.
Quando ele vier, cintilará mais o cristal da minha humanidade.
Não é a estrela que impõe alma às trevas?
Quando meu filho vier, será preciso estar como uma caixinha de música que alimentará as primeiras alegrias da sua atenção.
Quando ele vier, entrará em mim como um barco que tocará onde nenhum outro jamais tocou.
2.
Como será a face de meu filho?
Quem dirá as cores do dia a ponto de amanhecer.
Se ele se assemelhar a mim será como a água que reflete os picos profundos.
Se for como tu, Inaiá, será como a açucena que imita a açucena, a beira do caminho violento.
3.
A lembrança de que vou ser pai repica em mim como sinal de festa, no sino da igreja.
Mas Inaiá está pesada e lenta como nuvem carregada de chuva.
A chuva desperta, na semente, o clarão da vida.
Meu filho vai despertar em mim aquela vida de que sua vida precisará para encontrar a vida.
4.
Por enquanto os braços estão abertos. Aguardando-o como o sol.
Como o sol que ainda não nasceu e já colore o horizonte e já matiza ele minha vida, impaciente do seu advento.
Até agora o cofre está vazio. Quando ele nascer, uma pérola cairá no fundo, e o pobre de hoje não mais será tão pobre. Enricará, com a maciez dos seus dias.
5.
Inaiá acaba de bordar a manta que agasalhará o primeiro sono do nosso filho.
É um pano sem gala. Nenhum luxo o guarda, além do aparato de nossas esperanças.
Cada ponto, cada arabesco que ela gravou no agasalho nele prendeu sua alma de adoração.
Quando ele, na manta, se enrolar, será na alma de sua mãe que se enrolará.
Ele pode vir. Com o frio da noite. Ou com o acalanto da tarde. Uma constelação de confiança espera-o junto ao berço.
6.
Durante o dia, os pensamentos de espera entrecruzam-se como andorinhas curiosas. Em festa.
À noite, os pensamentos mudam. Esmorecem, na languidez do quarto, no ócio das trevas. Então, caio num claro-escuro de dúvidas. De pressentimentos. Como se ele tivesse vindo, e devêssemos seguir para a primeira partida com a vida.
Por que essa inquietação? Esse balé de dúvidas, de zelos?
7.
Quero-te paciente, Inaiá, como a chuva que se demora sobre a terra, apaziguando-a para o gênio das sementes.
O lavrador prepara o solo para que a espiga se opulente. Eu cuido da terra plantada do coração, responsáveis pelas semeadas que o farão florir.
Íngreme, sozinho é o planalto do ser. No topo desse planalto o meridiano da vida. Sozinho terá ele de subi-lo. Que, ao longo das subidas, suas quedas encontrem ânimos na sabedoria de nossa paciência.
8.
Ele ficará entre nós dois, como ponte entre dois continentes complementares.
Como o canal que, unindo dois lagos, arrasta um para o outro. E assemelhará, cada vez mais, os dois lagos inseparáveis.
(...)
(SOBRAL, A. Barcellos. Misael – Crônicas de uma paternidade.
Niterói: Cromos, 1996.)
Biografia:
Poeta, teórico da literatura e esteta da arte nascido em 1919, no município de Campos dos Goytacazes/RJ. Dono de uma obra poética sólida, propõe ideias estéticas para a elaboração daquilo que, em Contemplação da Unidade, sua principal obra, chamou de “poesia integral”. Nesse tratado de metafísica natural, o autor conjuga conceitos de filosofia de física quântica e física clássica, tangendo diretamente a termodinâmica clássica do físico alemão Max Planck e a transdiciplinaridade do professor Pierre Weil (holística).
Bibliografia:
Poema/1° Caderno. Campos: Clube de Poesia de Campos, 1955.
No alto como as estrelas. Rio de Janeiro: Cátedra, 1986.
Misael – Crônicas de uma paternidade: Niterói: Cromos, 1996.
Contemplação da unidade – Tentativa de uma holística da existência. Niterói: Lachâtre, 1998.
Contemplação da unidade – Tentativa de uma holística da existência. Niterói: Nitpress, 2008.
Nem só de nativos a literatura fluminense se engendra. É também – e principalmente – com os filhos “agregados” que esta cultura se faz. Neste caso, todos os que, por amor, se chegam ao nosso estado para compor o corifeu de nossa literatura são filhos (filhos tão legítimos quanto os nascidos no estado do Rio de Janeiro). Trata-se de uma legitimidade de mão dupla, pois, além de adotados, são também “adotantes”, isto é: elegeram de bom grado nosso espaço espiritual para fazer sua arte. A criação, um lócus, o amor eletivo. Legitimamente eletivo (!)
Bem como Geir Campos, outro nome que se adequa ao caso acima é o de Renato Augusto Farias de Carvalho. Conheçamos, pois, um pouco de sua arte, antes de conhecer sua persona:
Vida
para Beatriz Chacon
Eu nunca soube dizer da excêntrica fantasia cegueira e guia das minhas proezas caras envergonhadas, destino calado onde entrouxei o homem dissimulado.
Pré-venerável cerro fantasias alegrias perdidas.
Vida, vem como dantes vem, e não me tragas feridas.
Nós
deitei sem respirar no travesseiro de afetos da tua barriga branca solfejo errado teclado prateado estranho canto pálido na inconstante cama iluminada quina de amor para dois namorados que “fotografei” na mente numa velha ponte do Praga
(CARVALHO, Renato Augusto Farias de. Eu ainda não disse tudo. Manaus: Valer, 2011).
Renato Augusto Farias de Carvalho nasceu em Manaus/AM no dia 30 de junho de 1935. Em sua terra natal, estudou no Colégio Salesiano Dom Bosco. Na cidade do Rio de Janeiro/RJ, para onde se mudou em janeiro de 1952, continuou seus estudos no Colégio Andrews, tendo participado do Grêmio Acadêmico, que ajudou a fundar. No início de 1978, passou a residir em Niterói/RJ. Graduou-se em Letras (Língua e Literatura – Português/Francês) na então Faculdade de Humanidades Pedro II (FAHUPE). Pós-graduou-se em Administração Pública na Fundação Getúlio Vargas. Exerceu diversas funções e cargos na Previdência Social (Direção Geral – RJ), aposentado-se em 1989. Ocupante da cadeira nº 6 da Academia Niteroiense de Letras, também é membro do Cenáculo Fluminense de História e Letras e da Associação Niteroiense de Escritores. Publicou os seguintes livros: Porto de Ocasos (ficção/memórias. 1998. Editora Cromos), Poesia-do-que-eu-quis (poemas. 2002. Editora Cromos) e Vinho e Verso (poemas. 2005. Ed. Valer). Entre as diversas medalhas já recebidas, destacam-se a José Cândido de Carvalho (conferida pela Câmara Municipal de Niterói) e a do Mérito Cultural Belas Artes (conferida pala Associação Fluminense de Belas Artes). Participou, como entrevistado, do projeto “Personalidades de Niterói”, iniciativa da Associação Atlética do Banco do Brasil – AABB/Niterói. Autor dos enredos carnavalescos “Jorge Amado – do País do Carnaval à Tieta do Agreste” (1978) e “E agora malandro? – Você ganhou a loteria!” (1979), desenvolvidos para Escolas de Samba de Niterói, e de monografia sobre o Clube da Madrugada (movimento cultural de escritores amazonenses nos anos 1950). Das muitas palestras proferidas, destacam-se: “Teatros do Brasil” (participação de Beatriz Chacon e Thuany Feu de Carvalho), “Fagundes Varela”, “Cora Coralina e Manoel de Barros (participação de Gracinda Rosa e Lena Jesus Ponte), “Xavier Placer, 50 anos de literatura”, “Adelino Magalhães, e o pré-modernismo”, “Cora Coralina e Florbela Espanca, um encontro tão possível”, “Articulação poética aproximando Luiz Barcellar e Jorge Tufic” e “Lindalva Cruz e suas composições amazônicas”. É autor de contos e crônicas publicados em jornais e revistas e de alguns prefácios. Possui textos em antologias.
Quem são os “atores” da Renascença Fluminense? As postagens anteriores suscitaram perguntar como essa. Essas desejam saber se teríamos talentos que pudessem encabeçar a proposta de um renascimento da cultura literária fluminense (e, se caso houvesse, quem seriam essas figuras). As postagens que se seguirão a esta vêm responder a essas indagações. Apresentaremos alguns dos escritores que compõem o significativo cenário da literatura fluminense (sejam eles vivos-atuantes ou pertencentes a um passado ainda muito vigente). Consideremos homenageados os nomes aqui contemplados; estejamos, pois, preparados para o que é reconhecido como o melhor e o mais louvável na literatura feita no Rio de Janeiro.
Virgiliana, Xavier Placer
A Aurora & Hugo Tavares
As mangas os cajás as tangerinas Trazidas de Viagem, na fruteira Guardam nativas o ruço da Serra Do Mar, o mel do orvalho, inda a friagem
Derrama-se no entorno o grato aroma O impacto do quadro atrai olhares Principalmente aquele pequenino Povo de insetos, avoantes das frutas
Também as calateæ burle marxii E o arranjo das bromélias chamam vespas Das asas ensolaradas, zumbidoras
E os sumarentos frutos brasileiros Compõem, com as cores da florália Esta agridoce égloga do trópico.
(PLACER, Xavier. O Geômetra. Niterói: Letras Fluminenses, 1992
Quem são os “atores” da Renascença Fluminense? As postagens anteriores suscitaram perguntar como essa. Essas desejam saber se teríamos talentos que pudessem encabeçar a proposta de um renascimento da cultura literária fluminense (e, se caso houvesse, quem seriam essas figuras). As postagens que se seguirão a esta vêm responder a essas indagações. Apresentaremos alguns dos escritores que compõem o significativo cenário da literatura fluminense (sejam eles vivos-atuantes ou pertencentes a um passado ainda muito vigente). Consideremos homenageados os nomes aqui contemplados; estejamos, pois, preparados para o que é reconhecido como o melhor e o mais louvável na literatura feita no Rio de Janeiro.
Três haicais eróticos de Luís Antônio Pimentel
Olhos de uva verde
anunciam que teu corpo é taça de vinho.
Olhos de esmeralda rubis nos lábios, nos seios. E eu teu lapidário.
Em teus olhos - verde. Em tua boca - vermelho. Paro ou continuo?!
Quem são os “atores” da Renascença Fluminense? As postagens anteriores suscitaram perguntar como essa. Essas desejam saber se teríamos talentos que pudessem encabeçar a proposta de um renascimento da cultura literária fluminense (e, se caso houvesse, quem seriam essas figuras). As postagens que se seguirão a esta vêm responder a essas indagações. Apresentaremos alguns dos escritores que compõem o significativo cenário da literatura fluminense (sejam eles vivos-atuantes ou pertencentes a um passado ainda muito vigente). Consideremos homenageados os nomes aqui contemplados; estejamos, pois, preparados para o que é reconhecido como o melhor e o mais louvável na literatura feita no Rio de Janeiro.
1. Vagueio além de seu sono com alma de marinheiro feliz de chegar a um ponto sem previsão de roteiro, mais tonto de o descobrir que de lhe ser estrangeiro. Teu continente a dormir - pouso de barco ligeiro - pára os relógios num tempo avesso a qualquer ponteiro: nem sei se o fico vivendo ou se te acordo primeiro.
2. Eu te imagino acordando para a primeira comunhão do amor. Teu vestido de rezas (não são rosas) costuradas por quem as soube de ouvir também vais despindo e ficando com o uniforme natural de nadador; gesto por gesto, vais passando a perceber que em teu novo exercício pouco adianta toda teoria - como adianta pouco um salva-vidas a quem prefere, entre dois nados, mergulhar... Melhor que o nado, o mergulho desvenda as mais profundas relações de corpo a mar.
3. Das vozes que te embalavam a esperança de menina moça guardaste mais, de tanto repisadas, as perfumadas lições da nobre arte de agarrar um homem. De como te fazeres desejada, amada porventura, tudo aprendeste: os gestos, os meneios, a graça de sorrir e de calar. Hoje tens o teu homem disposto a desdobrar-se em pão e vinho para apagar tua fome. por isso, que lhe hás de dar: o trigo de tua pele, as uvas de tua boca? Se sem a ponte do amor, tua lavoura é tão pouca... Acorda: onde estão as vozes que te ensinaram a amar?
4. Bom é sorrires, olhar em mim: não vês o inimigo, o rival jamais. Na caça, não serás a presa; não serás, no jogo, a prenda. Partilharemos, sem meias medidas, a espera, o arroubo, o sono e o gosto desse rir dentro e fora do tempo sempre que nova mente acordares.
5. Acorda, meu bem, acorda: são horas de vigiar feliz quem menos recorda e faz do tempo passar monjolo-pêndulo-corda tocando um relógio de ar onde o momento concorda com ser eterno findar! Acorda, meu bem, acorda e ajuda teu madrugar: a mão do dia transborda de coisa para te dar. (...)
(CAMPOS, Geir. Antologia poética.
Org. Israel Pedrosa. Rio de Janeiro: Léo Christiano, 2003. p.237-239)