quarta-feira, 18 de maio de 2011

Sávio Soares de Sousa: minha indicação ao “Prêmio Intelectual do Ano” em 2011


Poeta, crítico literário e jornalista, foi professor de Latim e noções de Direito Usual na incipiente Universidade Federal Fluminense (UFF). Nascido em Niterói/RJ, em 1924, desde o início da década de 1950 colabora em suplementos literários, como Letras fluminenses, O Gládio e Prosa & verso, de O Fluminense. Atuante na vida cultural fluminense, é fundador de diversos grêmios e grupos literários, como Grêmio Literário Humberto de Campos (1944), Clube de Poesia de Niterói (1956), Grupo dos Amigos do Livro (1957); Associação Niteroiense de Cultura Latino-Americana (1964) e Grupo de Letras Fluminenses (1954). Participa de diversas instituições, entre elas, com destaque, as academias Fluminense e Niteroiense de Letras. Em 1965, manteve um programa radiofônico sobre poesia, intitulado Suave é a noite, na Rádio Sociedade de Nova Friburgo. Atualmente é um dos principais colunistas da Revista Bali - Boletim da Academia de Letras de Itaocara, dirigida por Kleber Leite.



Extrato de entrevista de Sávio Soares de Sousa, concedida a Roberto Kahlmeyer-Mertens


Sua formação em nível superior é no campo do Direito?

Sim, bacharelei-me em Direito por causa de meu pai. Eu sonhava com a carreira diplomática e com o magistério universitário. Estava na dúvida, e meu pai me falou: “ – Seria mais interessante que você fizesse Direito, pois eu já tenho os livros, a experiência, o escritório e a clientela”. Cursei a Faculdade de Direito, mas não tinha muito tempo para o estudo, porque, sendo de família pobre, era empregado bancário, com um horário absorvente, das 8 da manhã às 6 da tarde, e, assim, não fui o bom estudante que poderia ter sido. Com o diploma na mão, pensei comigo: “ – E agora: o que fazer com este canudo?” Advoguei por algum tempo, mas não me sentia com grande vocação para os debates forenses. Um dia, surgiu a oportunidade de tentar um concurso para o ingresso na Magistratura. Na data das inscrições, alguém, certamente um enviado de Belzebu, me falou assim: “ – Rapaz, você vai fazer papel de palhaço. Desde há muitas décadas, só passa nesses concursos quem seja apadrinhado. É um jogo com cartas marcadas. Só entra quem for filho de desembargador, ou de político, gente poderosa. Você é filho ou parente de desembargador? Seu pai não é um advogado influente e você não terá chance alguma. Não perca o seu tempo!” Ouvi o conselho, desisti da inscrição, rasguei a papelada... Joguei fora uma boa oportunidade. Verifiquei, depois, que entre os aprovados e nomeados figuravam muitos candidatos que não gozavam de nenhuma proteção ou favoritismo. Eu poderia ter sido um deles, imagino, porque, para suprir as deficiências do curso universitário, havia consumido noites e noites estudando Direito através da jurisprudência contida nos quatrocentos volumes da Revista dos Tribunais, adquiridos com esse objetivo.
Quem sabe não seria hoje um desembargador aposentado, na melhor das hipóteses? Alguns meses depois, abriram-se as inscrições para o concurso de ingresso no Ministério Público Estadual. Preparei a documentação necessária e no dia das inscrições me aparece, novamente, um desses emissários dos infernos, com a mesma cantilena. Não lhe dei ouvidos. Inscrevi-me, fiz o concurso e obtive ótima classificação. Fui nomeado Promotor de Justiça, exerci a função nas comarcas do interior por dez anos, e, finalmente, promovido por merecimento ao cargo de Procurador de Justiça, permaneci, durante vinte anos, no Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, junto às Câmaras Criminais, emitindo pareceres, inclusive, em casos criminais de grande repercussão. Nesse cargo me aposentei aos sessenta e nove anos de idade, em 1991.

E a passagem para a literatura, como foi?

Também aí se fez sentir a influência de Doutor Osvaldo Soares de Sousa, meu pai, que era inteligente e culto, e amava a literatura, sabe? Ele exerceu a advocacia pela necessidade de sustentar uma família numerosa – quinze filhos, além de agregados. Sua biblioteca ocupava um cômodo inteiro de nossa casa modesta, e era rica de volumes valiosos. E assim é que ele nos reunia, aos filhos maiores, na sala de visitas, à noite, e lia para nós, com um entusiasmo que nos empolgava, poemas de Gonçalves Dias, Castro Alves, Olavo Bilac e os poetas de sua preferência. Nunca publicou livros, embora também fosse poeta e autor de numerosos sonetos, divulgados pelos jornais e revistas do seu tempo de moço.

A influência paterna é, então, determinante em sua história com a literatura?

Sem dúvida!

Mas há, também, os movimentos literários como a roda do Calçadão da Cultura, em cuja gênese o senhor se encontra.

É verdade. Tomei parte em alguns movimentos literários e grupos dedicados à expansão da cultura, sobretudo à democratização da cultura. Sempre fui avesso a círculos fechados, a panelinhas de elogio mútuo, focos, muitas vezes, da exclusão de autênticos valores. No caso do Calçadão da Cultura, as coisas aconteceram meio na base do improviso, compreende? Fui, durante muitos anos, o orador oficial do Grupo de Amigos do Livro, por opção do livreiro Silvestre Mônaco, a quem me prendiam fortes laços de amizade.

Mas como surge esse movimento literário? Imagino que movimentos como esses círculos devam surgir como coisa inesperada, espontânea? Ou teria havido um projeto, com diretrizes, estatutos?

Esses movimentos, em regra geral, brotam de um pequeno grupo, que idealiza certo tipo de organização, com objetivos definidos, e depois crescem, com a adesão de novos elementos, atraídos pela novidade ou pela oportunidade de revelar seus talentos. Aí, sim, há estatutos, manifestos, debates preliminares. Mas, como já lhe disse, no Calçadão da Cultura, nada se fez de caso pensado, não houve premeditação. Isoladamente, éramos todos frequentadores da Livraria Ideal, na época em que a livraria era só uma portinha, na Rua da Praia. Um dia, o Silvestre Mônaco, pai do Carlos, e primeiro proprietário, juntamente com o sócio Emílio Petraglia, resolveu ampliar as dependências da loja. Terminada a obra, ele nos convidou, a mim, ao Carlos Couto, ao Luís Antônio Pimentel e ao Roberto Silveira, para organizarmos a comemoração do acontecimento. Como contribuição pessoal, adquiri um livro de presença, para o registro do comparecimento de fregueses e para a lavratura das atas de reunião, quando houvesse, e o ofereci, no dia da festa, ao Silvestre. Em meio à festa, o advogado Manoel Martins sugeriu que se aproveitasse a oportunidade para lançar a pedra fundamental de um grupo permanente de leitores ligados à Livraria Ideal. Foi lavrada uma ata e assim surgiu, em termos positivos, o Grupo dos Amigos do Livro. Todos os presentes assinaram a ata e o livro de presença é, hoje, um documento histórico. A minha escolha para orador do Grupo foi, apenas, uma consequência da oferta do livro de presenças (risos).
Era uma turma boa: Roberto Silveira, Afonso Celso Nogueira Monteiro, Gomes Filho, Aurélio Zaluar, Marly Medalha, Milton Nunes Loureiro, De Azevedo Rolim, Luiz Magalhães, Sylvio Lago, Raul Stein de Almeida, Dayl e Lyad de Almeida, Arino Peres, e muitos outros... O Grupo passou a se reunir regularmente, e o Geir trouxe muita gente do Rio de Janeiro para nos visitar, como o crítico Agripino Grieco.

Muitos podem ter sido os acontecimentos dignos de serem narrados. O senhor lembra de alguns?

A história do grupo é bem divertida e variada... Existem muitas estorinhas... assim, de cabeça, poderia lembrar algumas (...)

(Esta entrevista estará publicada na íntegra no livro: Conversações com intelectuais fluminenses, a ser publicado até julho de 2011)

Confira, também,  a entrevista de Sávio Soares de Sousa concedida à escritora Belvedere Bruno no site Recanto das Letras:http://www.recantodasletras.com.br/entrevistas/2105336




 Rapsódia para sanfona: o si maior de Sávio Soares de Sousa 
Roberto S. Kahlmeyer-Mertens





Rapsódia é um tipo de composição musical de estrutura indefinida, reunindo vários temas de inspiração popular. Durante a Idade Média, rapsodos corriam as cidades cantando versos embalados por música. Com o passar do tempo, a música e suas letras em quadras ganharam acento erudito, a ponto de, hoje, conhecermos mais as obras célebres como a Rapsódias Húngaras de Liszt e a Rhapsody in Blue de Gershwin do que aquela forma original.
O livro Rapsódia para sanfona encaixa-se duplamente nessa descrição. Conjunto de muitos versos, reúne o popular e o erudito; as poesias de teor público e as maximamente autorais. A “rapsódia” de Sávio Soares de Sousa é uma seleta de trovas, gênero também secular e que o autor domina muito bem.
A obra obedece a uma interessante intuição, pretende retomar a forma erudita da trova e reconduzi-la a suas origens populares. Ora, se conhecíamos a tentativa de Fernando Pessoa em fazer isso (e seu êxito parcial), conheçamos o resultado feliz do livro aqui apreciado. As trovas de Sávio seguem a forma clássica: quatro versos metrificados, rimando o primeiro com o terceiro e o segundo verso com o quarto (que geralmente concentra o efeito estético do poema, em seu desfecho inesperado ou espirituoso).
Não falta espírito em Rapsódia para sanfona! O autor maneja a palavra de modo a brincar com provérbios, flertar com a literatura culta e a revisitar muitas das formas do simbólico. Constata-se isso quando – remetendo-se ao conceito de inconsciente freudiano – diz o poeta (p.14):

“Forças ocultas sabotam
a consciência do cristão:
- anjos rezando no sótão,
- diabinhos no porão.”

Repleta de graça, esta é trova em sua fórmula precisa. Mas destaquemos a deliciosa ambigüidade que o “porão” traz no referido contexto. Outra amostra é vista nestes versos (p.23):

“Atirei um limão triste
no rumo do teu olhar:
ingrato amor, não me viste,
nem me ouviste suspirar...”

Com carga dramática, o significado aqui está entremeado no gesto do amante ao jogar o limão. Esse, popularmente, traduz uma insinuação de amor, emprestando rara sutileza a esta e outras trovas que variam sobre o mesmo tema.
Se for certo que a poesia é inteligência e carisma, Rapsódia para sanfona é um livro que estaria pronto para convencer até o mais cético dos leitores quanto a essa premissa. A mesma impressão se confirma na edição do livro, que traz na capa uma das últimas ilustrações que o desenhista Miguel Coelho produziu, e a assinatura da Traço & Foto, editora que há bastante tempo publica nomes e títulos escolhidos a dedo.







Roberto S. Kahlmeyer-Mertens

sexta-feira, 13 de maio de 2011

"Misael", de A. Barcellos Sobral (um livro precioso!)

Quem são os “atores” da Renascença Fluminense? As postagens anteriores suscitaram perguntar como essa. Essas desejam saber se teríamos talentos que pudessem encabeçar a proposta de um renascimento da cultura literária fluminense (e, se caso houvesse, quem seriam essas figuras). As postagens que se seguirão a esta vêm responder a essas indagações. Apresentaremos alguns dos escritores que compõem o significativo cenário da literatura fluminense (sejam eles vivos-atuantes ou pertencentes a um passado ainda muito vigente). Consideremos homenageados os nomes aqui contemplados; estejamos, pois, preparados para o que é reconhecido como o melhor e o mais louvável na literatura feita no Rio de Janeiro.


Fragmentos de Misael – Crônica de uma paternidade, por A. Barcellos Sobral


1.
Quando ele vier, cintilará mais o cristal da minha humanidade.
Não é a estrela que impõe alma às trevas?
Quando meu filho vier, será preciso estar como uma caixinha de música que alimentará as primeiras alegrias da sua atenção.
Quando ele vier, entrará em mim como um barco que tocará onde nenhum outro jamais tocou.

2.
Como será a face de meu filho?
Quem dirá as cores do dia a ponto de amanhecer.
Se ele se assemelhar a mim será como a água que reflete os picos profundos.
Se for como tu, Inaiá, será como a açucena que imita a açucena, a beira do caminho violento.

3.
A lembrança de que vou ser pai repica em mim como sinal de festa, no sino da igreja.
Mas Inaiá está pesada e lenta como nuvem carregada de chuva.
A chuva desperta, na semente, o clarão da vida.
Meu filho vai despertar em mim aquela vida de que sua vida precisará para encontrar a vida.

4.
Por enquanto os braços estão abertos. Aguardando-o como o sol.
Como o sol que ainda não nasceu e já colore o horizonte e já matiza ele minha vida, impaciente do seu advento.
Até agora o cofre está vazio. Quando ele nascer, uma pérola cairá no fundo, e o pobre de hoje não mais será tão pobre. Enricará, com a maciez dos seus dias.

5.
Inaiá acaba de bordar a manta que agasalhará o primeiro sono do nosso filho.
É um pano sem gala. Nenhum luxo o guarda, além do aparato de nossas esperanças.
Cada ponto, cada arabesco que ela gravou no agasalho nele prendeu sua alma de adoração.
Quando ele, na manta, se enrolar, será na alma de sua mãe que se enrolará.
Ele pode vir. Com o frio da noite. Ou com o acalanto da tarde. Uma constelação de confiança espera-o junto ao berço.

6.
Durante o dia, os pensamentos de espera entrecruzam-se como andorinhas curiosas. Em festa.
À noite, os pensamentos mudam. Esmorecem, na languidez do quarto, no ócio das trevas. Então, caio num claro-escuro de dúvidas. De pressentimentos. Como se ele tivesse vindo, e devêssemos seguir para a primeira partida com a vida.
Por que essa inquietação? Esse balé de dúvidas, de zelos?

7.
Quero-te paciente, Inaiá, como a chuva que se demora sobre a terra, apaziguando-a para o gênio das sementes.
O lavrador prepara o solo para que a espiga se opulente. Eu cuido da terra plantada do coração, responsáveis pelas semeadas que o farão florir.
Íngreme, sozinho é o planalto do ser. No topo desse planalto o meridiano da vida. Sozinho terá ele de subi-lo. Que, ao longo das subidas, suas quedas encontrem ânimos na sabedoria de nossa paciência.

8.
Ele ficará entre nós dois, como ponte entre dois continentes complementares.
Como o canal que, unindo dois lagos, arrasta um para o outro. E assemelhará, cada vez mais, os dois lagos inseparáveis.
(...)
(SOBRAL, A. Barcellos. Misael – Crônicas de uma paternidade.
Niterói: Cromos, 1996.)



Biografia:
Poeta, teórico da literatura e esteta da arte nascido em 1919, no município de Campos dos Goytacazes/RJ. Dono de uma obra poética sólida, propõe ideias estéticas para a elaboração daquilo que, em Contemplação da Unidade, sua principal obra, chamou de “poesia integral”. Nesse tratado de metafísica natural, o autor conjuga conceitos de filosofia de física quântica e física clássica, tangendo diretamente a termodinâmica clássica do físico alemão Max Planck e a transdiciplinaridade do professor Pierre Weil (holística).

Bibliografia:
Poema/1° Caderno. Campos: Clube de Poesia de Campos, 1955.
No alto como as estrelas. Rio de Janeiro: Cátedra, 1986.
Misael – Crônicas de uma paternidade: Niterói: Cromos, 1996.
Contemplação da unidade – Tentativa de uma holística da existência. Niterói: Lachâtre, 1998.
Contemplação da unidade – Tentativa de uma holística da existência. Niterói: Nitpress, 2008.






quarta-feira, 4 de maio de 2011

Renato Augusto Farias de Carvalho: Literatura confluente entre o Amazonas e o Rio de Janeiro


Nem só de nativos a literatura fluminense se engendra. É também – e principalmente – com os filhos “agregados” que esta cultura se faz. Neste caso, todos os que, por amor, se chegam ao nosso estado para compor o corifeu de nossa literatura são filhos (filhos tão legítimos quanto os nascidos no estado do Rio de Janeiro). Trata-se de uma legitimidade de mão dupla, pois, além de adotados, são também “adotantes”, isto é: elegeram de bom grado nosso espaço espiritual para fazer sua arte. A criação, um lócus, o amor eletivo. Legitimamente eletivo (!)
Bem como Geir Campos, outro nome que se adequa ao caso acima  é o de Renato Augusto Farias de Carvalho. Conheçamos, pois, um pouco de sua arte, antes de conhecer sua persona:


Vida

para Beatriz Chacon

Eu nunca soube dizer
da excêntrica fantasia
cegueira e guia
das minhas proezas
caras envergonhadas,
destino calado onde entrouxei
o homem dissimulado.

Pré-venerável
cerro fantasias
alegrias perdidas.

Vida, vem como dantes
vem, e não me tragas feridas.


Nós

deitei sem respirar
no travesseiro de afetos
da tua barriga branca
solfejo errado
teclado prateado
estranho canto pálido
na inconstante cama
iluminada quina de amor
para dois namorados que “fotografei”
na mente numa velha ponte do Praga
 
(CARVALHO, Renato Augusto Farias de. Eu ainda não disse tudo. Manaus: Valer, 2011).




Renato Augusto Farias de Carvalho nasceu em Manaus/AM no dia 30 de junho de 1935. Em sua terra natal, estudou no Colégio Salesiano Dom Bosco. Na cidade do Rio de Janeiro/RJ, para onde se mudou em janeiro de 1952, continuou seus estudos no Colégio Andrews, tendo participado do Grêmio Acadêmico, que ajudou a fundar. No início de 1978, passou a residir em Niterói/RJ. Graduou-se em Letras (Língua e Literatura – Português/Francês) na então Faculdade de Humanidades Pedro II (FAHUPE). Pós-graduou-se em Administração Pública na Fundação Getúlio Vargas. Exerceu diversas funções e cargos na Previdência Social (Direção Geral – RJ), aposentado-se em 1989. Ocupante da cadeira nº 6 da Academia Niteroiense de Letras, também é membro do Cenáculo Fluminense de História e Letras e da Associação Niteroiense de Escritores. Publicou os seguintes livros: Porto de Ocasos (ficção/memórias. 1998. Editora Cromos), Poesia-do-que-eu-quis (poemas. 2002. Editora Cromos) e Vinho e Verso (poemas. 2005. Ed. Valer). Entre as diversas medalhas já recebidas, destacam-se a José Cândido de Carvalho (conferida pela Câmara Municipal de Niterói) e a do Mérito Cultural Belas Artes (conferida pala Associação Fluminense de Belas Artes). Participou, como entrevistado, do projeto “Personalidades de Niterói”, iniciativa da Associação Atlética do Banco do Brasil – AABB/Niterói. Autor dos enredos carnavalescos “Jorge Amado – do País do Carnaval à Tieta do Agreste” (1978) e “E agora malandro? – Você ganhou a loteria!” (1979), desenvolvidos para Escolas de Samba de Niterói, e de monografia sobre o Clube da Madrugada (movimento cultural de escritores amazonenses nos anos 1950). Das muitas palestras proferidas, destacam-se: “Teatros do Brasil” (participação de Beatriz Chacon e Thuany Feu de Carvalho), “Fagundes Varela”, “Cora Coralina e Manoel de Barros (participação de Gracinda Rosa e Lena Jesus Ponte), “Xavier Placer, 50 anos de literatura”, “Adelino Magalhães, e o pré-modernismo”, “Cora Coralina e Florbela Espanca, um encontro tão possível”, “Articulação poética aproximando Luiz Barcellar e Jorge Tufic” e “Lindalva Cruz e suas composições amazônicas”. É autor de contos e crônicas publicados em jornais e revistas e de alguns prefácios. Possui textos em antologias.





domingo, 1 de maio de 2011

A "geometria poética" de Placer

Quem são os “atores” da Renascença Fluminense? As postagens anteriores suscitaram perguntar como essa. Essas desejam saber se teríamos talentos que pudessem encabeçar a proposta de um renascimento da cultura literária fluminense (e, se caso houvesse, quem seriam essas figuras). As postagens que se seguirão a esta vêm responder a essas indagações. Apresentaremos alguns dos escritores que compõem o significativo cenário da literatura fluminense (sejam eles vivos-atuantes ou pertencentes a um passado ainda muito vigente). Consideremos homenageados os nomes aqui contemplados; estejamos, pois, preparados para o que é reconhecido como o melhor e o mais louvável na literatura feita no Rio de Janeiro.



Virgiliana, Xavier Placer

A Aurora & Hugo Tavares


As mangas os cajás as tangerinas
Trazidas de Viagem, na fruteira
Guardam nativas o ruço da Serra
Do Mar, o mel do orvalho, inda a friagem


Derrama-se no entorno o grato aroma
O impacto do quadro atrai olhares
Principalmente aquele pequenino
Povo de insetos, avoantes das frutas


Também as calateæ burle marxii
E o arranjo das bromélias chamam vespas
Das asas ensolaradas, zumbidoras


E os sumarentos frutos brasileiros
Compõem, com as cores da florália
Esta agridoce égloga do trópico.
(PLACER, Xavier. O Geômetra. Niterói: Letras Fluminenses, 1992




quarta-feira, 27 de abril de 2011

Três haicais eróticos de Luís Antônio Pimentel

Quem são os “atores” da Renascença Fluminense? As postagens anteriores suscitaram perguntar como essa. Essas desejam saber se teríamos talentos que pudessem encabeçar a proposta de um renascimento da cultura literária fluminense (e, se caso houvesse, quem seriam essas figuras). As postagens que se seguirão a esta vêm responder a essas indagações. Apresentaremos alguns dos escritores que compõem o significativo cenário da literatura fluminense (sejam eles vivos-atuantes ou pertencentes a um passado ainda muito vigente). Consideremos homenageados os nomes aqui contemplados; estejamos, pois, preparados para o que é reconhecido como o melhor e o mais louvável na literatura feita no Rio de Janeiro.

Três haicais eróticos de Luís Antônio Pimentel




 
Olhos de uva verde
anunciam que teu corpo
é taça de vinho.


Olhos de esmeralda
rubis nos lábios, nos seios.
E eu teu lapidário.


Em teus olhos - verde.
Em tua boca - vermelho.
Paro ou continuo?!








Cantigas de acordar mulher, Geir Campos

Quem são os “atores” da Renascença Fluminense? As postagens anteriores suscitaram perguntar como essa. Essas desejam saber se teríamos talentos que pudessem encabeçar a proposta de um renascimento da cultura literária fluminense (e, se caso houvesse, quem seriam essas figuras). As postagens que se seguirão a esta vêm responder a essas indagações. Apresentaremos alguns dos escritores que compõem o significativo cenário da literatura fluminense (sejam eles vivos-atuantes ou pertencentes a um passado ainda muito vigente). Consideremos homenageados os nomes aqui contemplados; estejamos, pois, preparados para o que é reconhecido como o melhor e o mais louvável na literatura feita no Rio de Janeiro.

 


Cantigas de acordar mulher, Geir Campos


1.
Vagueio além de seu sono
com alma de marinheiro
feliz de chegar a um ponto
sem previsão de roteiro,
mais tonto de o descobrir
que de lhe ser estrangeiro.
Teu continente a dormir
- pouso de barco ligeiro -
pára os relógios num tempo
avesso a qualquer ponteiro:
nem sei se o fico vivendo
ou se te acordo primeiro.


2.
Eu te imagino acordando
para a primeira comunhão do amor.
Teu vestido de rezas (não são rosas)
costuradas por quem
as soube de ouvir também
vais despindo e ficando
com o uniforme natural de nadador;
gesto por gesto, vais passando a perceber
que em teu novo exercício pouco adianta
toda teoria
- como adianta pouco um salva-vidas
a quem prefere, entre dois nados, mergulhar...
Melhor que o nado, o mergulho desvenda
as mais profundas relações de corpo a mar.

3.
Das vozes que te embalavam
a esperança de menina
moça
guardaste mais, de tanto repisadas,
as perfumadas lições
da nobre arte de agarrar um homem.
De como te fazeres desejada,
amada porventura,
tudo aprendeste: os gestos, os meneios,
a graça de sorrir e de calar.
Hoje tens o teu homem
disposto a desdobrar-se em pão e vinho
para apagar tua fome.
por isso, que lhe hás de dar:
o trigo de tua pele, as uvas de tua boca?
Se sem a ponte do amor, tua lavoura é tão pouca...
Acorda: onde estão as vozes que te ensinaram a amar?

4.
Bom é sorrires, olhar
em mim: não vês
o inimigo, o rival
jamais.
Na caça, não serás
a presa; não serás,
no jogo, a prenda.
Partilharemos, sem meias
medidas,
a espera, o arroubo, o sono
e o gosto desse rir
dentro e fora do tempo
sempre que nova mente
acordares.

5.
Acorda, meu bem, acorda:
são horas de vigiar
feliz quem menos recorda
e faz do tempo passar
monjolo-pêndulo-corda
tocando um relógio de ar
onde o momento concorda
com ser eterno findar!
Acorda, meu bem, acorda
e ajuda teu madrugar:
a mão do dia transborda
de coisa para te dar.
(...)

(CAMPOS, Geir. Antologia poética.
Org. Israel Pedrosa. Rio de Janeiro: Léo Christiano, 2003. p.237-239)


sexta-feira, 22 de abril de 2011

Israel Pedrosa: sobre arte, cores e intuições

por Roberto S. Kahlmeyer-Mertens

Carlos Drummond de Andrade em uma de suas poesias indaga:

“Como é o lugar
quando ninguém passa por ele?
Existem as coisas sem ser vistas?
O interior do apartamento desabitado,
a pinça esquecida na gaveta,
os eucaliptos à noite no caminho
três vezes deserto,
os mortos, um minuto
depois de sepultados,
nós, sozinhos
no quarto sem espelho?
Que fazem, que são
as coisas não testadas como coisas,
minerais não descobertos - e algum dia o serão?
(...)
Existe, existe o mundo
apenas pelo olhar
que o cria e lhe confere
espacialidade?
Concretitude das coisas: falácia
de olho enganador, ouvido falso,
mão que brinca de pegar o não
e pegando-o
concede-lhe
a ilusão de forma
e, ilusão maior, a de sentido?(...)”

Suposta existência é um dos textos mais belos e reflexivos do autor. Felicidade Drummond não ter se cansado da beleza nem ter tido medo do conceito! Faz sua poesia, mas permite que ela flerte com a contemplação e a investigação. Perguntar pela suposta existência ou pela inexistência é, mesmo, coisa para gente destemida. Mas o poeta não está só nessa aventura, o pintor Israel Pedrosa também assim o faz em sua arte. Arte especulativa, decerto! E especulando sobre uma possibilidade é que o artista ― brincando de pegar o não ― desvelou a “cor inexistente”.
Fenômeno, sem dúvida! Não falácia ao olho ou falso ouvido, é fenômeno perceptível à retina e ao espírito. Na época em que se arvorava a morte da arte, e em que muitos partiram em sua defesa por meio dos argumentos, a cor inexistente, tal como formulada por Pedrosa, foi premissa visual que permitiu a revisitação da arte da pintura. Evidência a partir da qual a arte se auto-afirma e sua história pode ser relida. Assim, DaVinci, Turner, Van Gogh, Klee... antes de pintores, são coloristas, para os quais a cor e arte podem, doravante, ser ressignificadas!
Israel Pedrosa escreve o livro desta resignificação. Tal tributo ao patrimônio dos mestres parte dessa perspectiva de cor, das aulas que esses ministraram à Humanidade: Dez aulas magistrais. Assim se intitulará o livro em que o autor trabalha atualmente (e que já dedicou quase duas décadas). A obra, sine die, é esperada com vivo interesse por todos que desejam pensar a arte enquanto cor e, esta, como agente expressivo.
Prévia deste pormenorizado exercício de interpretação, já estaria disponível em uma edição comemorativa do octogésimo aniversário do artista. Na contramão dos preconceitos estéticos da Era dos extremos é compilação de artigos que são preâmbulos a sua obra capital, pois Pedrosa declara, ali, seus posicionamentos teóricos e estéticos (sem que os primeiros tenham primado sobre os outros). É isso que se vê no tópico O domínio do fenômeno da cor inexistente: Essência da ciência da pintura e do controle sobre as imagens visuais. Conjunto dos pressupostos que hoje falam alto em sua obra, temos comentários sobre as concepções de arte em Alberti (um dos primeiros renascentistas); notas sobre a luz branca e sua comprovação operada por DaVinci; estudos sobre a percepção das cores de Caravaggio a Vermeer; indicações históricas sobre as conquistas da óptica física no âmbito de cor, das pesquisas de Newton e de sua contestações pela teoria das cores de Goethe, e outros tantos pontos referenciando o mestre Portinari.
Há, também, textos que registram o ambiente intelectual no qual o pintor brasileiro se formou: antologias, revoluções e modernismos; a atenção na recepção das vanguardas por Monteiro Lobato e mostras da atenção para com a palavra poética (veja-se o tópico dedicado à latência poética de Geir Campos). No mais, são comentários sobre as afinidades artísticas com Eugênio Proença, Quirino e Hilda Campofiorito além de outros textos heterogêneos e originais.
A caprichosa edição do livro (digna de ser conferida) é assinada por Leo Christiano Editorial e documenta o êxito admirável na relação entre editor e autor. Parceria decisiva na busca por criar um mundo digno dos olhares e das intuições intelectuais.