quinta-feira, 21 de abril de 2011

Do domínio da inexistência da cor segundo Israel Pedrosa

por Roberto Kahlmeyer-Mertens

A editora do SENAC-RJ reedita “Da cor à cor inexistente”, de Israel Pedrosa. O livro, considerado estudo original sobre as cores, é contribuição relevante aos conhecimentos da óptica e responsável pelo refinamento técnico-prático no campo das artes visuais. Publicado inicialmente em 1977, o trabalho rendeu ao pesquisador e artista plástico o Prêmio Thomas Mann, oferecido pela Embaixada da Alemanha. Após isso, o professor da Universidade Federal Fluminense – UFF, que fez uma série de palestras de divulgação naquele país e no Brasil, foi convidado pela Enciclopédia Mirador para coordenar, em 1978, a equipe multidiciplinar responsável pela cunhagem do verbete “cor”, da mesma. Requisitado por grupos representantes de emissoras de televisão, colaborou com a implementação da TV a cores em nosso país, o que também ocorreu com a multinacional Xerox, que se serviu da consultoria do pesquisador, beneficiando-se do saldo de suas pesquisas para solucionar problemas no desenvolvimento das tecnologias da fotocópia colorida.
Abordando o fenômeno cor, visando seus aspectos físicos, perceptuais e estéticos, o autor pesquisou concepções da física moderna, detendo-se principalmente nos estudos de Newton. Dialogando com o célebre ensaio de Goethe, “Esboço de uma teoria das cores”, Israel Pedrosa pôde promover uma clarificação de aspectos históricos do conceito de cor, fazendo com que sua obra constitua um argumento teoricamente válido e saneador de imprecisões de certos conceitos relativos à aplicação das cores, elevando o nível dos conhecimentos sobre o tema.
É preciso ressaltar, entretanto, que o motivo pelo qual “Da cor à cor inexistente” vai, ainda repleto de validade, à sua décima edição (excetuando-se as de língua inglesa) é a delimitação do conceito de “cor inexistente”, objeto para o qual a obra apresenta elegante teoria. Apoiando-se na observação de entes físicos, o pesquisador observou que corpos idênticos de cor branca sob efeito da luz solar, em iguais circunstâncias e intensidade, manifestavam, sem que houvesse interferência externa, cores como o violeta em diversos matizes. A partir disso, pode o autor afirmar: “Tive naquele instante a imediata intuição de que se tratava de um fenômeno físico e não de uma ilusão ótica”. Apropriando esta experiência para o campo das artes visuais, Israel Pedrosa inferiu que seria possível projetar tal fenômeno em um suporte físico reproduzindo em relações cromáticas uma cor que não havia sido quimicamente fixada.
Essa explicação sumária da teoria da cor inexistente encontra, no livro, fundamentação teórica suficiente a partir de discussões sobre a imaterialidade da cor, seu condicionamento à existência da luz, fatores perceptivos como o efeito colour vision e esclarecimentos quanto à substância material e propriedades específicas dos pigmentos que geram cor a partir da refração da luz.
Na nova edição (primeira pela Editora do SENAC) é possível encontrar, além das inúmeras ilustrações necessárias, um conjunto de críticas, depoimentos e notícias que documentam a recepção dessas ideias no panorama nacional e estrangeiro. Entre os depoimentos, estão os do astrônomo Rogério Freitas Mourão, do lexicógrafo Antônio Houaiss e de representantes de Universidade de Louvain, na Bélgica.
Da cor à cor inexistente é, de fato, “uma rara ponte entre a ciência e a arte”.



quarta-feira, 20 de abril de 2011

Saudação do imortal Marcos Almir Madeira ao “Filósofo da Cor”


O dia 18 de abril está impregnado de cultura brasileira, pois é a data em que se comemora o nascimento do escritor Monteiro Lobato, do poeta modernista Augusto Frederico Schmidt e de Israel Pedrosa.

Pintor, professor e pesquisador, Israel Pedrosa nasceu a 18 de abril de 1926 em Alto Jequitibá/MG. Aluno de Cândido Portinari a partir de 1942. Estudou na Escola Superior de Belas Artes de Paris entre 1948 e 1950. Foi o mais jovem integrante da FEB, na Itália. No 1° Congresso Mundial – Palais de Chaillot, Paris 1948 – foi eleito vice-presidente da Federação Internacional dos Ex-Combatentes, um dos órgãos não governamentais da UNESCO. Fundador da cadeira de História da Arte na Universidade Federal Fluminense – UFF em 1963. Ministrou cursos e conferências em Universidades e Centros de Pesquisas e de Arte no Brasil, Alemanha, França, Bélgica, Hungria e México. Em 1966, chegou ao domínio do fenômeno que denominou cor inexistente, revelando novos aspectos das relações entre as cores e da essência da harmonia cromática. Em 1973, recebeu o Prêmio Thomas Mann, em virtude do qual viajou para a República Federal da Alemanha como hóspede do governo, realizando palestras e demonstração de seus trabalhos no Instituto de Belas Artes de Munique a convite do Prof. Mayer-Speer, decano da Universidade. É o autor do texto-monográfico “cor”, da Enciclopédia Mirador Internacional (1975). Recebeu o Prêmio Hilton de Pintura da década de 1970. Como reconhecimento por seu trabalho, tem recebido diversas comendas e títulos. Aqui, Israel Pedrosa faz um apanhado geral de sua obra enfatizando seu atual projeto que envolve uma interpretação arrojada do legado de mestres da pintura em face da noção de cor.

Em homenagem ao nosso ilustre aniversariante, as próximas três postagens do Literatura-Vivência contemplarão aspectos de sua vida e obra, a começar pela histórica saudação a Israel Pedrosa proferida pelo imortal da ABL, Marcos Almir Madeira, por ocasião da conferência de abertura do Ano Portinari (2003) da Academia Brasileira de Arte.

A um filósofo da cor, Marcos Almir Madeira

“A designação de nosso presidente Agenôr Rodrigues Vale para que eu lhe dissesse hoje a palavra de saudação, na verdade só fez credenciar-me em nome da Academia Brasileira de Arte um voto de regozijo. É o voto de nossa coerência. Estamos a exprimir a alegria pela presença de um artista genuíno na tribuna. Eu ia lhe dizer, um artista completo, lembrando-me de Portinari quando confessou a Augusto Frederico Schmidt que se considerava completo por ter sabido entrelaçar vocação e formação, o que valia por dizer sensibilidade e técnica. Aluno do próprio Portinari, o Ilustre conferencista dessa tarde soube adicionar ao painel vocacional certos ingredientes de manipulação estética bem pessoais. Há em toda sua obra as tintas de sua personalidade, o gosto e poder da invenção. Tanto isso é verdade que nos deu a teoria personalíssima da cor inexistente, e tornou-se um filósofo dos matizes, das nuanças, dos tons e dos meios-tons. Que fabricam tantas vezes a delícia e a surpresa para os nossos olhos imaginosos ou equivocados. Será a imaginação nas pálpebras? A ilusão nas pupilas? A boa verdade é que a sua condição de filósofo da cor assegura o título de pintor das ideias, de artista da renovação, de renovação no processo da arte. Com prazer esta Academia saúda o mineiro que se deu ao Estado do Rio de Janeiro e bem especialmente a Niterói, cidade natal de Antônio Parreiras, aquele clássico da pintura, com certos toques de um impressionismo inesperado, da Niterói que também foi berço de bons modernos: os Campofiorito.
O aperfeiçoamento de seus estudos em Paris, por volta de 1948, Mestre Israel Pedrosa, foi sem dúvida benéfico a sua brilhante carreira e particularmente à Universidade Federal Fluminense, que lhe deve a criação da Cadeira de História da Arte.
Saudamos, igualmente, sua obra escrita, notadamente os estudos de 1968, quando veio a público o que poderíamos talvez denominar Teoria e prática do mistério da cor.
Bendito o pincel do filósofo. Bendita a filosofia da arte redescoberta.
Bem haja a criatividade – a inteligência aberta à vida, por fidelidade e amor à Santa Madre Natureza. Bendita, mestre, a singularidade do seu exemplo.”




sábado, 16 de abril de 2011

D. Pedro II: Literato e verdadeiro Patrono da inteligência brasileira

Quem são os “atores” da Renascença Fluminense? As postagens anteriores suscitaram perguntar como essa. Essas desejam saber se teríamos talentos que pudessem encabeçar a proposta de um renascimento da cultura literária fluminense (e, se caso houvesse, quem seriam essas figuras). As postagens que se seguirão a esta vêm responder a essas indagações. Apresentaremos alguns dos escritores que compõem o significativo cenário da literatura fluminense (sejam eles vivos-atuantes ou pertencentes a um passado ainda muito vigente). Consideremos homenageados os nomes aqui contemplados; estejamos, pois, preparados para o que é reconhecido como o melhor e o mais louvável na literatura feita no Rio de Janeiro.



Terra do Brasil, Dom Pedro de Alcântara

Espavorida agita-se a criança,
De noturnos fantasmas com receio,
Mas se abrigo lhe dá materno seio,
Fecha os doridos olhos e descansa.


Perdida é para mim toda a esperança.
De volver ao Brasil; de lá me veio
Um pugilo de terra; e neste creio
Brando será meu sono e sem tardança...


Qual o infante a dormir em peito amigo,
Tristes sombras varrendo da memória,
ó doce Pátria, sonharei contigo!


E entre visões de paz, de luz, de glória,
Sereno aguardarei no meu jazigo
A justiça de Deus na voz da história!


sábado, 9 de abril de 2011

Luiz Leitão, poeta da Roda do “Café Paris”

Quem são os “atores” da Renascença Fluminense? As postagens anteriores suscitaram perguntar como essa. Essas desejam saber se teríamos talentos que pudessem encabeçar a proposta de um renascimento da cultura literária fluminense (e, se caso houvesse, quem seriam essas figuras). As postagens que se seguirão a esta vêm responder a essas indagações. Apresentaremos alguns dos escritores que compõem o significativo cenário da literatura fluminense (sejam eles vivos-atuantes ou pertencentes a um passado ainda muito vigente). Consideremos homenageados os nomes aqui contemplados; estejamos, pois, preparados para o que é reconhecido como o melhor e o mais louvável na literatura feita no Rio de Janeiro.



Carta amorosa, Luiz (Lili) Leitão


Principio a escrever: ‘- Minha adorada!
não te posso esquecer um só momento
porque em minh’alma tenho retratada
a tua imagem num deslumbramento’.


Continuo a escrever à namorada,
‘Teu nome não me sai do pensamento;
sendo palavra, para mim, sagrada,
quando a profissão do gozo represento’.


Acabo de escrever. Rabisco minha
assinatura. E então meto a cartinha
num bonito envelope. Molho a pena…


Vou fazer o endereço… E que castigo!
Dou mil tratos à bola e não consigo
Recordar-me do nome da pequena.

 

sábado, 19 de março de 2011

Breve nota sobre a origem das bandas de música, por R. S. Kahlmeyer-Mertens

À Banda Campesina Friburguense


As páginas do primeiro capítulo de Casa-grande & senzala denunciam nossa composição étnico-cultural. Reveladoras quanto às influências africanas e indígenas, elas também recordam – para nosso assombro – o quanto somos debitários dos europeus. O português teria nos legado a tintura paradoxal de um patriotismo vibrante e do entusiasmo fugaz, a aptidão para imitar e a imprevidência, a vaidade e os escrúpulos de honra, a inteligência prática e a predisposição ao patético, o caráter sociável e generosidade irrestrita. Estes são apontados por Gilberto Freyre como bens no rol de nossa herança lusitana. (1) Com toda atenção que o antropólogo dispensou a nossa cultura imaterial, não recordamos de ter lido nada que o autor tenha escrito sobre a herança de nosso gosto pela música, especificamente aquela executada em espaço aberto: praças, campos, arenas e estádios, longe, portanto, da intimidade dos domicílios burgueses que ocultavam seus pianos e clarinetas.
As apresentações públicas de grupos musicais formados por instrumentos de sopro e de percussão sempre foram cativas ao brasileiro. Inicialmente com caráter militar, contavam com ritmos fortes como a marcha e o dobrado, mas não tardou para que a banda se popularizasse, adoçando seu repertório com polcas, valsas e composições populares.
Poucas atrações causam tão forte impressão à primeira audiência. Em verdade, há todo um elã em torno da apresentação de uma banda de música: um bucolismo festivo de praça em dia de domingo, o feérico coreto em cores amenas, as formas curiosas dos instrumentos, os trajes de circunstância, a presença digníssima do maestro... todos estes elementos nutrem um rico imaginário já existente em torno da banda. Parte desta fantasia coletiva é fomentada por sua história e tradição que, neste caso, justificam o interesse que o fenômeno desperta.
O historiador musical Gustav Reese (2) data a origem da banda ainda na Idade Média, avaliação que encontra respaldo em Carpeaux, ainda que este entenda que a música ocidental começa sacra. (3) Reese assegura que, antes mesmo de a música adentrar a Igreja, menestréis e trovadores já eram guardas e difusores de habilidades (menos que técnicas) que favoreceriam a música instrumental no medievo. Apesar de possuírem um modo de vida reprovado pela sociedade, esses ambulantes foram figuras chave na cunhagem do hábito de se tocar e ouvir música em espaços públicos, de modo que não seria incorreto afirmar que as bandas, tal como modernamente conhecidas, possuem raízes firmadas nesta experiência.
No Renascimento, principalmente na Alemanha, veem-se os instrumentos legados pelos menestréis incorporados à Igreja. Tornava-se, assim, cada vez mais frequente o uso de trompas e trompetes em procissões e festivais religiosos; mais tarde, será possível ver instrumentos de sopro nos ambientes de culto, musicando encenações bíblicas, casamentos e batizados da nobreza. Se considerarmos este como um dos primeiros passos rumo ao acolhimento da música em grupo e à criação do vínculo institucional para os músicos, é preciso dizer que outros não tardaram a ser dados. Vemos, assim, ainda no Quattrocento, em Londres e em Florença, bandas com músicos uniformizados pertencentes às prefeituras tocando em tribunais e em eventos cívicos. O uso militar também era previsto, por animar – como acreditava o filósofo Nicolau Maquiavel – o moral de infantes e cavalarianos que davam combate ao ritmo de cornetas e caixas. (4)
Ao fim deste período, mais que a “transformação do status social do artista”, (5) vemos o refinamento técnico dos músicos e da regência. Tal fenômeno se explica “em consequência da dinâmica da sociedade europeia da Renascença;” (6) tendo, na laicização da música, a revogação dos cânones estéticos da Igreja, em face ao retorno aos valores greco-latinos (verdadeiro abalo no privilégio que fazia da música quase um bem clerical). O advento da imprensa também representou avanço, viabilizando, se não a reprodução de partituras, livros que contribuíram para a criação de uma massa crítica versada em música e um ambiente propício para a formação e expansão do gosto. Não por acaso, presenciamos no período subsequente obras de mestres como Monteverdi, Telemann e Vivaldi para as vozes integrantes da banda.
O aperfeiçoamento da engenharia dos instrumentos, que colaborou para sua feição atual, e o aquiescimento da instrumentação especializada propiciaram, no século XVIII, que bandas pudessem executar obras de compositores proeminentes. Assim, muitas das peças de câmara escritas por Mozart seriam executadas por bandas do tipo Harmonie (formadas geralmente por clarinete, fagote, oboé e trompas); do mesmo modo, Beethoven, Haydn e Schubert contribuíram para o desenvolvimento do gênero. (7)
Por mais que o século XIX tenha sido bastante significativo para este segmento, sobretudo no que diz respeito ao ganho de qualidade técnica dos intérpretes e à consolidação do formato que as bandas têm atualmente, foi apenas nos 1900 que vimos chegar sua autonomia. No ano de 1909, o músico inglês Gustav Holst deu-nos o primeiro trabalho sinfônico original inteiramente dedicado à banda. A Suíte em Mi Bemol, mais que uma peça clássica da música sinfônica para banda, é considerada um marco histórico, cujos influxos se fazem sentir nas escolas britânica, americana e canadense. (8) O exemplo de Holst também motivou compositores como Ralph Vaughan Williams e Percy Aldridge Grainger, cujos trabalhos agregaram tanto recursos expressivos (entre eles, o aumento do colorido na paleta tonal) quanto criativos. Isso é o que se constata ante os inúmeros títulos especialmente consagrados ao repertório atual.
Se no Brasil herdamos dos colonizadores lusos o gosto pela música desses conjuntos, é preciso dizer que ele se firmou definitivamente na paisagem cultural brasileira com a presença dos imigrantes. Dos ingleses, por exemplo, ganhamos mais que a fé na indústria: aprendemos a admirar o gesto marcial, a disciplina dos ensembles e descobrimos a música como forma de expressão de nosso orgulho cívico.
Uma apresentação de banda, seja a de uma ingênua charanga ou a de uma grandiloquente sinfônica, não nos faculta a indiferença. Uma tal arte exalta os melhores dentre àqueles comportamentos inicialmente elencados por Freyre, (9) inspira-nos o sentimento de comunidade (na contramão dos individualismos) e orquestra caros projetos que estão no âmago da civilização ocidental. É em reconhecimento a isso que as iniciativas pública e privada se empenham na perpetuação desta instituição, crédito cujo retorno é o aquecimento das culturas e sociedades.

NOTAS

1 FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala. 31ª. ed. Rio de Janeiro: Record, 1996. p.3-54.

2 REESE, Gustav. Music in the Middle Ages. New York: W. W. Norton, 1940.

3 CARPEAUX, Otto Maria. Uma nova história da música. Rio de Janeiro: Editorial Alhambra, 1975.

4 MAQUIAVEL, Nicolau. A arte da guerra. Col. Pensamento político. Trad. Sérgio Bath. Brasília: EdUNB, 1980. p.27.

5 MERQUIOR, José Guilherme. A teoria da música, ou a arte como crítica da cultura. In: A estética de Lévi-Strauss. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975. p.45.

6 Ibdem, p. 45.

7 HELLYER, Roger. Harmoniemusik: Music for Small Wind Band in the Late Eighteenth and Early Nineteenth Centuries. Oxford: University of Oxford, 1973.

8 HOLST, Imogen. The Music of Gustav Holst, 2ª. ed. London: Oxford University Press, 1968.

9 FREYRE, Op. cit. p.7.











quinta-feira, 17 de março de 2011

Leodegário A. de Azevedo Filho "In memoriam"

O nome de Leodegário dispensa apresentação: Professor titular da UFRJ e emérito da UERJ, Presidente de honra da Academia Brasileira de Filologia e Doutor Honoris Causa pala Universidade Fernando Pessoa, no Porto, foi também o mais respeitado estudioso da obra de Camões no Brasil (reconhecimento este extensivo ao estrangeiro). Falecido em 30 de janeiro deste ano, o professor, que fez sua última apresentação pública na Academia Niteroiense de Letras – ANL, em 10 de novembro de 2010, deixou comigo o texto de sua apresentação para que fosse publicado. Cuidei para que este pedido fosse atendido, enviando o paper para uma respeitada revista eletrônica de literatura. Antes, porém, da publicação integral do artigo, veiculo aqui um extrato para que possamos ter uma prévia da excelência deste último inédito da lavra de Mestre Leodegário.


A verdadeira primeira edição de “Os Lusíadas”, por Leodegário A. de Azevedo Filho.

“Editar criticamente um texto significa apresentá-lo ao leitor em sua forma possivelmente originária ou livre de impurezas, pois a edição de um texto, seja ele qual for, sempre está sujeita a lacunas, saltos, lapsos de impressão, de revisão ou de cópia, omissões, transposições, troca de letras ou de palavras, inovações, interpolações, em suma, erros de toda espécie, incluindo-se aqui os decorrentes de ultracorreção e hipercorreção.
No caso da epopéia camoniana, com duas tiragens, além da editio princeps, datadas de 1572, são numerosos e complexos os problemas que se deparam aos estudiosos de crítica textual.
O ideal seria, acrescente-se desde logo, que todos os exemplares da epopéia camoniana, com data de 1572, apresentassem o mesmo texto, sem qualquer variante grave, secundária ou puramente gráfica. Mas isso, bem sabemos, não ocorre, compreendendo-se assim que, ao longo de vários séculos, tão delicada questão textual tenha ocupado um sem número de investigadores, a começar mesmo por M. de Farias e Sousa, o grande editor do século XVII. Como não se ignora, partiu ele de uma tradição textual divergente e mesmo múltipla, confrontando então dois exemplares dessa tradição, embora sem observar neles a posição do colo do pelicano voltada para a esquerda ou para a direita do leitor na portada dos volumes. Como texto-base, escolheu o exemplar que apresentava no sétimo verso da primeira estrofe, no Canto I, a seguinte leitura: (...)”



O texto integral se encontrará publicado, em breve, na Revista Literária Litteris. Confira no seguinte endereço: http://www.revistaliteris.com.br/


sexta-feira, 11 de março de 2011

Poesia e vivência segundo Wilhelm Dilthey

Chegou da Alemanha, na última quarta-feira, meu jovem amigo Eduardo Kisse. Ele, que passara quatro meses em Berlim fazendo um curso de aperfeiçoamento em língua alemã, veio de lá com uma série de bons livros na bagagem, entre eles Das Erlebnis und die Dichtung (Vivência e poesia), de Wilhelm Dilthey (1833-1911).

Tendo apenas passado os olhos em meu Blog (não tendo lido sua primeira postagem: Cf. “Incipit” do dia 03/03). Eduardo achou muito interessante eu “ter feito uma referência velada ao Vivência e poesia, de Dilthey”. Em princípio, nenhuma referência foi feita a este autor e a sua obra neste Blog. Entretanto, é preciso reconhecer que o título do Blog e o do referido livro são, mesmo, afins!

Li Vivência e poesia, diletantemente, no ano de 1997 (salvo engano). Na época, ainda não tinha tido acesso ao original alemão e acabei lendo-o na tradução mexicana de Wensceslao Roces (uma tradução bastante satisfatória para o espanhol, com supervisão de Eugenio Imaz).

Com o ensejo da conversa, acabei voltando ao livro e pude, assim, lembrar o quanto existe ali boas intuições, especialmente para quem deseja saber e praticar poesia.

Vivência e poesia receberá uma edição para o português ainda este ano. Publicado pela editora Via Verita, o livro deste que foi, com certeza, um dos últimos mestres-filósofos da Alemanha (e não só filósofo, Dilthey foi historiador, psicólogo, pedagogo, crítico literário e biógrafo; além de professor de nomes como Max Weber, Oswald Spengler, Eduard Spranger e José Ortega y Gasset), terá versão do experimentado tradutor Marco Antonio Casanova.

Enquanto a edição brasileira não sai, fiquemos com um trecho estabelecido a partir da tradução de Roces:

“É a relação entre a vida, a fantasia e a plasmação da obra que determina todas as qualidades gerais da poesia. Toda obra poética atualiza um determinado acontecer. Projeta, portanto, diante de nós a simples aparência de algo real, por meio das palavras e suas combinações. Deve-se, pois, empregar todos os meios da linguagem para produzir impressão e ilusão, e neste modo artístico de tratar a linguagem reside um dos primeiros e mais importantes valores estéticos da obra poética. Não é seu propósito ser expressão ou representação da vida; antes, a linguagem isola seu tema da conexão real da vida e lhe infunde a totalidade dentro de si mesma. Deste modo, põe-se em liberdade a quem desejar captá-la, situando-se neste mundo da aparência, à margem das necessidades de sua existência material. Exalta seu sentimento de existência. Satisfaz ao homem circunscrito pela trajetória de sua vida a nostalgia de viver as possibilidades de vida que pessoalmente não pode realizar. Levanta-lhe o olhar a um mundo mais alto e mais pujante. E ocupa-lhe todo seu ser com a “re-vivência” em um fluxo de processos psíquicos, desde o gozo pelo som, pelo ritmo, pela plasticidade sensível até a mais profunda compreensão do acontecer e de suas relações com toda a amplitude da vida. Pois toda autêntica obra poética destaca o corte da realidade que representa uma qualidade da vida que antes nunca se havia visto deste modo. Ao mesmo tempo que dá relevo a uma conexão casual de processos ou de atos, faz que se revivam os valores que, dentro da vida, correspondem a um acontecimento e as diferentes partes que o formam. O acontecimento tratado cobra, assim, sua significação. Não existe nenhuma grande poesia naturalista que não proclame estes traços significativos da vida, por desconsoladores, estranhos e obtusos que eles possam ser. O gênio artístico dos maiores poetas consiste precisamente em apresentar ao acontecimento de tal modo que resplandeça nele a vida mesmo e seu sentido. Deste modo, a poesia nos abre a compreensão da vida. Com os olhos dos grandes poetas, percebemos o valor e a consciência das coisas humanas.
Assim, no fundo da criação poética se encerram as vivências pessoais, as compreensões de estados externos, a ampliação e aprofundamento da vivência por meio das ideias. O ponto de partida da criação poética é sempre a experiência da vida, como vivência pessoal ou como compreensão da de outros seres, presentes ou passados, e dos acontecimentos em que estes seres cooperam. Cada um dos infinitos estados de vida por que passa o poeta pode ser qualificado como “vivência” em um sentido psicológico: mas só aqueles momentos de sua existência que lhe revelam um traço da vida guardam uma relação profunda com sua poesia. Por muito que o poeta possa tomar do mundo das ideias – e o influxo das ideias em um Dante, em um Shakespeare, em um Schiller, foi gigante – , todas as ideias religiosas, metafísicas, históricas, não são em última instância senão “preparados” de grandes vivências passadas, representações delas e só quando fazem inteligíveis ao poeta suas próprias experiências lhe servem para captar coisas novas na vida.”

(DILTHEY, Wilhelm. Vida y poesia. Trad. Wensceslao Roces. Fondo de Cultura Econômica: México, 1945. p.157-158)