sábado, 19 de março de 2011

Breve nota sobre a origem das bandas de música, por R. S. Kahlmeyer-Mertens

À Banda Campesina Friburguense


As páginas do primeiro capítulo de Casa-grande & senzala denunciam nossa composição étnico-cultural. Reveladoras quanto às influências africanas e indígenas, elas também recordam – para nosso assombro – o quanto somos debitários dos europeus. O português teria nos legado a tintura paradoxal de um patriotismo vibrante e do entusiasmo fugaz, a aptidão para imitar e a imprevidência, a vaidade e os escrúpulos de honra, a inteligência prática e a predisposição ao patético, o caráter sociável e generosidade irrestrita. Estes são apontados por Gilberto Freyre como bens no rol de nossa herança lusitana. (1) Com toda atenção que o antropólogo dispensou a nossa cultura imaterial, não recordamos de ter lido nada que o autor tenha escrito sobre a herança de nosso gosto pela música, especificamente aquela executada em espaço aberto: praças, campos, arenas e estádios, longe, portanto, da intimidade dos domicílios burgueses que ocultavam seus pianos e clarinetas.
As apresentações públicas de grupos musicais formados por instrumentos de sopro e de percussão sempre foram cativas ao brasileiro. Inicialmente com caráter militar, contavam com ritmos fortes como a marcha e o dobrado, mas não tardou para que a banda se popularizasse, adoçando seu repertório com polcas, valsas e composições populares.
Poucas atrações causam tão forte impressão à primeira audiência. Em verdade, há todo um elã em torno da apresentação de uma banda de música: um bucolismo festivo de praça em dia de domingo, o feérico coreto em cores amenas, as formas curiosas dos instrumentos, os trajes de circunstância, a presença digníssima do maestro... todos estes elementos nutrem um rico imaginário já existente em torno da banda. Parte desta fantasia coletiva é fomentada por sua história e tradição que, neste caso, justificam o interesse que o fenômeno desperta.
O historiador musical Gustav Reese (2) data a origem da banda ainda na Idade Média, avaliação que encontra respaldo em Carpeaux, ainda que este entenda que a música ocidental começa sacra. (3) Reese assegura que, antes mesmo de a música adentrar a Igreja, menestréis e trovadores já eram guardas e difusores de habilidades (menos que técnicas) que favoreceriam a música instrumental no medievo. Apesar de possuírem um modo de vida reprovado pela sociedade, esses ambulantes foram figuras chave na cunhagem do hábito de se tocar e ouvir música em espaços públicos, de modo que não seria incorreto afirmar que as bandas, tal como modernamente conhecidas, possuem raízes firmadas nesta experiência.
No Renascimento, principalmente na Alemanha, veem-se os instrumentos legados pelos menestréis incorporados à Igreja. Tornava-se, assim, cada vez mais frequente o uso de trompas e trompetes em procissões e festivais religiosos; mais tarde, será possível ver instrumentos de sopro nos ambientes de culto, musicando encenações bíblicas, casamentos e batizados da nobreza. Se considerarmos este como um dos primeiros passos rumo ao acolhimento da música em grupo e à criação do vínculo institucional para os músicos, é preciso dizer que outros não tardaram a ser dados. Vemos, assim, ainda no Quattrocento, em Londres e em Florença, bandas com músicos uniformizados pertencentes às prefeituras tocando em tribunais e em eventos cívicos. O uso militar também era previsto, por animar – como acreditava o filósofo Nicolau Maquiavel – o moral de infantes e cavalarianos que davam combate ao ritmo de cornetas e caixas. (4)
Ao fim deste período, mais que a “transformação do status social do artista”, (5) vemos o refinamento técnico dos músicos e da regência. Tal fenômeno se explica “em consequência da dinâmica da sociedade europeia da Renascença;” (6) tendo, na laicização da música, a revogação dos cânones estéticos da Igreja, em face ao retorno aos valores greco-latinos (verdadeiro abalo no privilégio que fazia da música quase um bem clerical). O advento da imprensa também representou avanço, viabilizando, se não a reprodução de partituras, livros que contribuíram para a criação de uma massa crítica versada em música e um ambiente propício para a formação e expansão do gosto. Não por acaso, presenciamos no período subsequente obras de mestres como Monteverdi, Telemann e Vivaldi para as vozes integrantes da banda.
O aperfeiçoamento da engenharia dos instrumentos, que colaborou para sua feição atual, e o aquiescimento da instrumentação especializada propiciaram, no século XVIII, que bandas pudessem executar obras de compositores proeminentes. Assim, muitas das peças de câmara escritas por Mozart seriam executadas por bandas do tipo Harmonie (formadas geralmente por clarinete, fagote, oboé e trompas); do mesmo modo, Beethoven, Haydn e Schubert contribuíram para o desenvolvimento do gênero. (7)
Por mais que o século XIX tenha sido bastante significativo para este segmento, sobretudo no que diz respeito ao ganho de qualidade técnica dos intérpretes e à consolidação do formato que as bandas têm atualmente, foi apenas nos 1900 que vimos chegar sua autonomia. No ano de 1909, o músico inglês Gustav Holst deu-nos o primeiro trabalho sinfônico original inteiramente dedicado à banda. A Suíte em Mi Bemol, mais que uma peça clássica da música sinfônica para banda, é considerada um marco histórico, cujos influxos se fazem sentir nas escolas britânica, americana e canadense. (8) O exemplo de Holst também motivou compositores como Ralph Vaughan Williams e Percy Aldridge Grainger, cujos trabalhos agregaram tanto recursos expressivos (entre eles, o aumento do colorido na paleta tonal) quanto criativos. Isso é o que se constata ante os inúmeros títulos especialmente consagrados ao repertório atual.
Se no Brasil herdamos dos colonizadores lusos o gosto pela música desses conjuntos, é preciso dizer que ele se firmou definitivamente na paisagem cultural brasileira com a presença dos imigrantes. Dos ingleses, por exemplo, ganhamos mais que a fé na indústria: aprendemos a admirar o gesto marcial, a disciplina dos ensembles e descobrimos a música como forma de expressão de nosso orgulho cívico.
Uma apresentação de banda, seja a de uma ingênua charanga ou a de uma grandiloquente sinfônica, não nos faculta a indiferença. Uma tal arte exalta os melhores dentre àqueles comportamentos inicialmente elencados por Freyre, (9) inspira-nos o sentimento de comunidade (na contramão dos individualismos) e orquestra caros projetos que estão no âmago da civilização ocidental. É em reconhecimento a isso que as iniciativas pública e privada se empenham na perpetuação desta instituição, crédito cujo retorno é o aquecimento das culturas e sociedades.

NOTAS

1 FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala. 31ª. ed. Rio de Janeiro: Record, 1996. p.3-54.

2 REESE, Gustav. Music in the Middle Ages. New York: W. W. Norton, 1940.

3 CARPEAUX, Otto Maria. Uma nova história da música. Rio de Janeiro: Editorial Alhambra, 1975.

4 MAQUIAVEL, Nicolau. A arte da guerra. Col. Pensamento político. Trad. Sérgio Bath. Brasília: EdUNB, 1980. p.27.

5 MERQUIOR, José Guilherme. A teoria da música, ou a arte como crítica da cultura. In: A estética de Lévi-Strauss. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975. p.45.

6 Ibdem, p. 45.

7 HELLYER, Roger. Harmoniemusik: Music for Small Wind Band in the Late Eighteenth and Early Nineteenth Centuries. Oxford: University of Oxford, 1973.

8 HOLST, Imogen. The Music of Gustav Holst, 2ª. ed. London: Oxford University Press, 1968.

9 FREYRE, Op. cit. p.7.











quinta-feira, 17 de março de 2011

Leodegário A. de Azevedo Filho "In memoriam"

O nome de Leodegário dispensa apresentação: Professor titular da UFRJ e emérito da UERJ, Presidente de honra da Academia Brasileira de Filologia e Doutor Honoris Causa pala Universidade Fernando Pessoa, no Porto, foi também o mais respeitado estudioso da obra de Camões no Brasil (reconhecimento este extensivo ao estrangeiro). Falecido em 30 de janeiro deste ano, o professor, que fez sua última apresentação pública na Academia Niteroiense de Letras – ANL, em 10 de novembro de 2010, deixou comigo o texto de sua apresentação para que fosse publicado. Cuidei para que este pedido fosse atendido, enviando o paper para uma respeitada revista eletrônica de literatura. Antes, porém, da publicação integral do artigo, veiculo aqui um extrato para que possamos ter uma prévia da excelência deste último inédito da lavra de Mestre Leodegário.


A verdadeira primeira edição de “Os Lusíadas”, por Leodegário A. de Azevedo Filho.

“Editar criticamente um texto significa apresentá-lo ao leitor em sua forma possivelmente originária ou livre de impurezas, pois a edição de um texto, seja ele qual for, sempre está sujeita a lacunas, saltos, lapsos de impressão, de revisão ou de cópia, omissões, transposições, troca de letras ou de palavras, inovações, interpolações, em suma, erros de toda espécie, incluindo-se aqui os decorrentes de ultracorreção e hipercorreção.
No caso da epopéia camoniana, com duas tiragens, além da editio princeps, datadas de 1572, são numerosos e complexos os problemas que se deparam aos estudiosos de crítica textual.
O ideal seria, acrescente-se desde logo, que todos os exemplares da epopéia camoniana, com data de 1572, apresentassem o mesmo texto, sem qualquer variante grave, secundária ou puramente gráfica. Mas isso, bem sabemos, não ocorre, compreendendo-se assim que, ao longo de vários séculos, tão delicada questão textual tenha ocupado um sem número de investigadores, a começar mesmo por M. de Farias e Sousa, o grande editor do século XVII. Como não se ignora, partiu ele de uma tradição textual divergente e mesmo múltipla, confrontando então dois exemplares dessa tradição, embora sem observar neles a posição do colo do pelicano voltada para a esquerda ou para a direita do leitor na portada dos volumes. Como texto-base, escolheu o exemplar que apresentava no sétimo verso da primeira estrofe, no Canto I, a seguinte leitura: (...)”



O texto integral se encontrará publicado, em breve, na Revista Literária Litteris. Confira no seguinte endereço: http://www.revistaliteris.com.br/


sexta-feira, 11 de março de 2011

Poesia e vivência segundo Wilhelm Dilthey

Chegou da Alemanha, na última quarta-feira, meu jovem amigo Eduardo Kisse. Ele, que passara quatro meses em Berlim fazendo um curso de aperfeiçoamento em língua alemã, veio de lá com uma série de bons livros na bagagem, entre eles Das Erlebnis und die Dichtung (Vivência e poesia), de Wilhelm Dilthey (1833-1911).

Tendo apenas passado os olhos em meu Blog (não tendo lido sua primeira postagem: Cf. “Incipit” do dia 03/03). Eduardo achou muito interessante eu “ter feito uma referência velada ao Vivência e poesia, de Dilthey”. Em princípio, nenhuma referência foi feita a este autor e a sua obra neste Blog. Entretanto, é preciso reconhecer que o título do Blog e o do referido livro são, mesmo, afins!

Li Vivência e poesia, diletantemente, no ano de 1997 (salvo engano). Na época, ainda não tinha tido acesso ao original alemão e acabei lendo-o na tradução mexicana de Wensceslao Roces (uma tradução bastante satisfatória para o espanhol, com supervisão de Eugenio Imaz).

Com o ensejo da conversa, acabei voltando ao livro e pude, assim, lembrar o quanto existe ali boas intuições, especialmente para quem deseja saber e praticar poesia.

Vivência e poesia receberá uma edição para o português ainda este ano. Publicado pela editora Via Verita, o livro deste que foi, com certeza, um dos últimos mestres-filósofos da Alemanha (e não só filósofo, Dilthey foi historiador, psicólogo, pedagogo, crítico literário e biógrafo; além de professor de nomes como Max Weber, Oswald Spengler, Eduard Spranger e José Ortega y Gasset), terá versão do experimentado tradutor Marco Antonio Casanova.

Enquanto a edição brasileira não sai, fiquemos com um trecho estabelecido a partir da tradução de Roces:

“É a relação entre a vida, a fantasia e a plasmação da obra que determina todas as qualidades gerais da poesia. Toda obra poética atualiza um determinado acontecer. Projeta, portanto, diante de nós a simples aparência de algo real, por meio das palavras e suas combinações. Deve-se, pois, empregar todos os meios da linguagem para produzir impressão e ilusão, e neste modo artístico de tratar a linguagem reside um dos primeiros e mais importantes valores estéticos da obra poética. Não é seu propósito ser expressão ou representação da vida; antes, a linguagem isola seu tema da conexão real da vida e lhe infunde a totalidade dentro de si mesma. Deste modo, põe-se em liberdade a quem desejar captá-la, situando-se neste mundo da aparência, à margem das necessidades de sua existência material. Exalta seu sentimento de existência. Satisfaz ao homem circunscrito pela trajetória de sua vida a nostalgia de viver as possibilidades de vida que pessoalmente não pode realizar. Levanta-lhe o olhar a um mundo mais alto e mais pujante. E ocupa-lhe todo seu ser com a “re-vivência” em um fluxo de processos psíquicos, desde o gozo pelo som, pelo ritmo, pela plasticidade sensível até a mais profunda compreensão do acontecer e de suas relações com toda a amplitude da vida. Pois toda autêntica obra poética destaca o corte da realidade que representa uma qualidade da vida que antes nunca se havia visto deste modo. Ao mesmo tempo que dá relevo a uma conexão casual de processos ou de atos, faz que se revivam os valores que, dentro da vida, correspondem a um acontecimento e as diferentes partes que o formam. O acontecimento tratado cobra, assim, sua significação. Não existe nenhuma grande poesia naturalista que não proclame estes traços significativos da vida, por desconsoladores, estranhos e obtusos que eles possam ser. O gênio artístico dos maiores poetas consiste precisamente em apresentar ao acontecimento de tal modo que resplandeça nele a vida mesmo e seu sentido. Deste modo, a poesia nos abre a compreensão da vida. Com os olhos dos grandes poetas, percebemos o valor e a consciência das coisas humanas.
Assim, no fundo da criação poética se encerram as vivências pessoais, as compreensões de estados externos, a ampliação e aprofundamento da vivência por meio das ideias. O ponto de partida da criação poética é sempre a experiência da vida, como vivência pessoal ou como compreensão da de outros seres, presentes ou passados, e dos acontecimentos em que estes seres cooperam. Cada um dos infinitos estados de vida por que passa o poeta pode ser qualificado como “vivência” em um sentido psicológico: mas só aqueles momentos de sua existência que lhe revelam um traço da vida guardam uma relação profunda com sua poesia. Por muito que o poeta possa tomar do mundo das ideias – e o influxo das ideias em um Dante, em um Shakespeare, em um Schiller, foi gigante – , todas as ideias religiosas, metafísicas, históricas, não são em última instância senão “preparados” de grandes vivências passadas, representações delas e só quando fazem inteligíveis ao poeta suas próprias experiências lhe servem para captar coisas novas na vida.”

(DILTHEY, Wilhelm. Vida y poesia. Trad. Wensceslao Roces. Fondo de Cultura Econômica: México, 1945. p.157-158)


quinta-feira, 10 de março de 2011

O Estado do Rio e sua literatura: uma viagem prazerosa e instrutiva, por Cunha e Silva Filho

No ano passado, publicou-se um livro relativamente pequeno ainda não suficientemente divulgado, Viagem literária através do Estado do Rio, (Niterói: Nitpress, 2010, 190 p.), organizado pelo professor Luiz Antonio Barros, professor de língua portuguesa do Colégio Militar do Rio de Janeiro, autor didático, dicionarista meticuloso, estudioso sobretudo de questões etimológicas e semânticas. O livro traz um primoroso prefácio do escritor Roberto Kahlmeyer-Mertens e iluminadoras orelhas de Luiz Augusto Erthal.

O autor, com mais esta obra, confirma seus inegáveis dotes de um pesquisador que sabe como encontrar o melhor caminho de reunir seu material pesquisado, no caso, autores nascidos no Estado do Rio de Janeiro.Contudo, reunir não é o suficiente para este pesquisador, porque ele avança no que está realizando, i.e., compõe uma antologia de escritores, inserindo os de maior projeção e outros de menor projeção ou quase desconhecidos, como Max de Vasconcelos (1891-1919), Walter Siqueira, Menezes Wanderley, dos quais nem dados biobibliográficos sequer encontrou o antologista. Outro, entre outros citados pelo organizador seria o poeta satírico e ator profissional, José Inácio da Costa, pseudônimo de Capacho, que viveu no Rio de Janeiro durante o vice-reino pré-joanino, de quem pouco se sabe e nem mesmo onde e quando faleceu. Disso resulta uma antologia enxuta, agradável, que, na verdade, nada tem das velhas fórmulas de se organizar uma antologia, cuja metodologia consistia apenas em reunir autores, fornecer-lhes dados biobibliográficos e selecionar excertos que melhor atendessem à subjetividade do organizador ou dos organizadores. Naturalmente, esta subjetividade será traço comum a qualquer organizador de antologias.

Para alterar esse modelo já gasto, Luiz Antonio opta por uma forma diferente e mais amena de aliviar o leitor, já que a reunião de autores e textos diferentes torna-se por vezes cansativa, quando prolongada no seu tempo de leitura. Para suavizar essa monotonia, o organizador resolveu, de forma original, apresentar seus autores sinalizando os escritores por grupos geográficos específicos, com capítulos ou seções sugestivos e aliciantes, como, por exemplo, o primeiro capítulo intitulado “Por lagos e mar há algum tempo navegados”.

Pode-se dizer que a antologia abrange a totalidade das cidades do Estado do Rio de Janeiro. Se há omissões de autores, e, neste gênero de publicação sempre os há, creio que não foi por culpa do antologista.

Outra novidade introduzida por Luiz Antonio foi a oportuna e eficaz ideia de, até por associá-la ao próprio título da antologia, fornecer breves informações históricas, etimológicas, econômicas, paisagísticas e culturais sobre a cidade ou região que precedem cada escritor incluído, além de, em alguns casos, resumidas apreciações críticas a respeito de obras significativas dos autores, assim como dados biobibliográficos na medida do possível e do que o autor conseguiu colher das pesquisas por ele empreendidas.

Fica-se sabendo o quanto de valores literários permanecem olvidados pelo povo, mesmo por especialistas em literatura brasileira. Obviamente, a quantidade de autores menores é grande, mas se descobre afinal que, entre os esquecidos, há deles de real valor literário, que são dignos de estudos por parte dos estudiosos de literatura. Já por isso vale a pena conhecer esta antologia.

Quanto aos textos selecionados, vejo que o organizador teve bom gosto e foi criterioso, ele que é um experiente professor e um assíduo leitor de literatura brasileira. Nestes textos, o leitor atento, o professor de literatura, hão de encontrar material inestimável para a sala de aula. Eu, particularmente, me surpreendi com nomes de autores merecedores de estudos pela qualidades de suas obras e pelo quase anonimato em que se encontram no panorama da literatura brasileira, tanto do passado quanto da atualidade. A antologia de Luiz Antonio tem este mérito, o de suscitar o interesse por esse autores pouco ou quase nada conhecidos por especialista, Acredito que isso é uma realidade de âmbito nacional, de solução quase incontornável. A literatura é também feita de injustiças por parte de historiadores.

Seria conveniente ao organizador que mantivesse as partes da antologia uniformes, o que vinha acontecendo sem problema até à citação do escritor Wanderlino Teixeira Leite Netto (p.175). Até aí o organizador vinha inserindo textos correspondentes a cada autor, ficando de fora desta norma, infelizmente, os nove autores que finalizam a antologia.

O organizador às páginas 108-109, discorrendo sobre a cidade de Porciúncula e a origem do seu nome, desta vez não inclui, nenhum escritor. Apenas cita um comentário de dois autores sobre a expressão diminutiva “porciúncula”, que, para eles, não vem a ser o nome pelo qual foi designado aquele município. Para eles, Porciúncula foi assim chamada simplesmente por homenagem a Tomás de Porciúncula, o qual fora Presidente (ou Governador) do Estado do Rio de Janeiro. O texto “Armadilha da sardinha coqueiro”, ali selecionado, aliás, bem interessante pelo seu bom nível literário- humorístico apenas se incluiu, penso eu, pela relação geográfica com o município. Neste caso, o organizador foge ao plano geral da natureza do livro.

Na questão da inclusão de nomes na antologia de Luiz Antonio, que é um nó górdio de qualquer antologista, e que muitas vezes provoca polêmicas devido às suscetibilidades dos autores não incluídos, teria sido bom que o antologista tivesse incluído o nome da escritora, Roza de Oliveira, trovadora, poetisa, ensaísta, autora de literatura infantil,, admirável declamadora, e professora universitária aposentada,nascida em Santo Antônio de Pádua, Rio de Janeiro e residente há muitos anos em Curitiba. Roza continua atuante na atividade literária, mantendo-se em plena forma com suas oficinas de poesia em Curitiba e divulgando seus trabalhos de poetisa e de consagrada trovadora dentro e fora do Paraná. Não culpo o antologista por qualquer omissão involuntária, principalmente porque, o mais das vezes, durante a organização dos dados coletados, ele mesmo não teve notícia de uma autora fluminense que está fora do Rio há anos e nem pudera encontrá-la em obras predecessoras.

Creio que, com esta nova obra, Luiz Antonio, conforme o fizera com o seu útil Dicionário de ditados, provérbios, alusões, citações e paródias (Niterói: Nitpress, 2008, 317 p.) estará prestando mais uma grande contribuição aos estudos literários, ao mesmo tempo em que sua Viagem literária através do Estado do Rio vem tornar mais conhecidos dos leitores cariocas, fluminenses e brasileiros em geral, e nos diversos gêneros literários, alguns escritores de destaque mas menos conhecidos que, ao lado de Machado de Assis, Lima Barreto, Euclides da Cunha, Fagundes Varela, Casimiro de Abreu e tantos outros, nascidos no Estado do Rio de Janeiro, aí estão à espera de serem agora mais bem estudados, divulgados e pesquisados.

Luiz Antonio cuidou, quer pela capacidade de pesquisador, quer pelas atualizadas referências bibliográficas, antecedidas de siglas que, no corpo do livro, facilitam enormemente o leitor, quer, finalmente, pelo impecável índice onomástico, acrescido da página referente ao autor, de preencher esta lacuna e o fez com competência e dedicação, qualidades que sempre nele apreciei desde quando fui dele colega no Colégio Militar do Rio de Janeiro.
 

Para se conhecer mais do trabalho do Prof. Cunha e Silva Filho, confira:

segunda-feira, 7 de março de 2011

Roda-viva: movimento incessante, corrupio... poesia na dinamicidade da palavra

Lembram da canção Roda-viva, de Chico Buarque? Sua poesia faz parte da famosíssima peça de mesmo nome, escrita em 1967 e que, um ano depois, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa, recebeu montagem à altura, no teatro Oficina. Chico Buarque, que até então era "a única unanimidade brasileira", nas palavras de Millôr Fernandes, chocou parte de seu público com a radicalidade crítica e o tom francamente agressivo da peça.


Roda-viva, Chico Buarque de Hollanda

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mais eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
No volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

sábado, 5 de março de 2011

As Tuas Mãos Terminam em Segredo, Fernando Pessoa


As tuas mãos terminam em segredo.
Os
teus olhos são negros e macios

Cristo na cruz os teus seios (?) esguios
E o teu perfil princesas no degredo...

Entre buxos e ao pé de bancos frios
Nas entrevistas alamedas, quedo
O vendo põe o seu arrastado medo
Saudoso o longes velas de navios.

Mas quando o mar subir na praia e for
Arrasar os castelos que na areia
As crianças deixaram, meu amor,

Será o haver cais num mar distante...
Pobre do rei pai das princesas feias
No seu castelo à rosa do Levante !

sexta-feira, 4 de março de 2011

Alberto Caeiro, poeta pagão

Li hoje, de Alberto Caeiro (heterônomo de Fernando Pessoa)
Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.

Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.